sexta-feira, 15 de maio de 2015

Ronald de Carvalho – Poesia – Parte 3


Brasil
                                       Ronald de Carvalho

Nesta hora de sol puro
         palmas paradas
         pedras polidas
         claridades
         faíscas
         cintilações

Eu ouço o canto enorme do Brasil!

Eu ouço o tropel dos cavalos de Iguaçu.
      correndo nas pontas das rochas nuas,
      empinando-se no ar molhado, batendo
      com as patas de água na manhã de
      bolhas e pingos verdes;

Eu ouço a tua grave melodia, a tua bárbara
      e grave melodia, Amazonas, a melodia
      da tua onda lenta de óleo espesso, que se
      avoluma e se avoluma, lambe o barro
      das barrancas, morde raízes, puxa ilhas
      e empurra o oceano mole como um touro
      picado de farpas, varas, galhos e
      folhagens;

Eu ouço a terra que estala no ventre quente
      do nordeste, a terra que ferve na planta
      do pé de bronze do cangaceiro, a terra
      que se esboroa e rola em surdas bolas
      pelas estradas de Juazeiro, e quebra-se
      em crostas secas, esturricadas no Crato
      chato;

Eu ouço o chiar das caatingas – trilos, pios,
     pipios, trinos, assobios, zumbidos, bicos
     que picam, bordões que ressoam retesos,
     tímpanos que vibram límpidos, papos
     que estufam, asas que zinem, zinem,
     rezinem, cris-cris, cicios, cismas, cismas
     longas, langues – caatingas debaixo do
     céu!

Eu ouço os arroios que riem, pulando na
      garupa dos dourados gulosos, mexendo
      com os bagres no limo das luras e das
      locas;

Eu ouço as moendas espremendo canas, o
      glu-glu do mel escorrendo nas tachas, o
      tinir das tijelinhas nas seringueiras;
      e machados que disparam caminhos,
      e serras que toram troncos,
      e matilhas de “Corta-Vento”, “Rompe-Ferro”,
             “Faíscas” e “Tubarões acuando
              suçuaranas e maçarocas,
e mangues borbulhando na luz,
e caititus tatalando as  queixadas para os
             jacarés que dormem no tijuco morno dos
             igapós...

Eu ouço todo o Brasil cantando, zumbindo,
            gritando, vociferando!

Redes que se balançam,
sereias que apitam,
usinas que rangem, martelam, arfam,
      estridulam, ululam e roncam,
tubos que explodem,
guindastes que giram,
rodas que batem,
trilhos que trepidam,
rumor de coxilhas e planaltos, campainhas,
        relinchos, aboiados e mugidos,
repiques de sinos, estouros de foguetes,
        Ouro Preto, Bahia, Congonhas, Sabará,
vaias de bolsas empinando número como
           papagaios,
tumulto de ruas que saracoteiam sob arranha-céus,
vozes de todas as raças que a maresia dos
         portos joga no sertão!

Nesta hora de sol puro eu ouço o Brasil!

Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar!
a conversa dos fazendeiros nos cafezais,
a conversa dos mineiros nas galerias de ouro,
a conversa dos operários nos fornos de aço,
a conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias,
a conversa dos coronéis nas varandas das roças...

Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora,
            De sol puro,
palmas paradas
pedras polidas
claridades
brilhos
faíscas
cintilações  
             
é o canto dos teus berços, Brasil, de todos
           esses teus berços, onde dorme, com
           a boca escorrendo de leite, moreno, confiante,
o homem de amanhã!


Referência bibliográfica: 
Ronald de Carvalho - Poesia e Prosa. Por Peregrino Junior. Coleção Nossos Clássicos, sob direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Correa. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1960. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Ronald de Carvalho – Poesia – parte 2


Cheiro de Terra

Há versos que são como um jardim depois da chuva:
deixam em nós a sensação da água caindo,
caindo em bolhas trêmulas da ponta das folhas,

escorrendo da péla macia das pétalas,
pingando dos galhos lavados, gota a gota,
pingando no ar...

Versos que cheiram a terra molhada,
versos que são como um jardim depois da chuva...


Monotonia da Tarde Tropical

Nos jardins do arrabalde os girassóis dourados
abrem os cálices pesados para o poente.
Nos jardins solitários desce a penumbra suavemente,
desce a penumbra nos jardins calados.

Doçura do crepúsculo,
Doçura das montanhas e das árvores silenciosas
no crepúsculo...

Rola no ar morno um perfume acre de ervas queimadas
um perfume voluptuoso de carne e de frutas ácidas.

Sobre os jardins do arrabalde,
Surge trêmula, trêmula,
a primeira estrela.


Verdade

A verdade é talvez um momento feliz.
O teu momento feliz...  


Fonte bibliográfica: Trechos de "Epigramas irônicos e sentimentais" (1922) em "Ronald de Carvalho - Poesia e Prosa" por Peregrino Júnior. Coleção Nossos Clássicos, sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Correa. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1960.  

domingo, 1 de março de 2015

Ronald de Carvalho – Poesia


Interior

Poeta dos trópicos, tua sala de jantar
é simples e modesta como um tranquilo pomar;

no aquário transparente, cheio de água limosa,
nadam peixes vermelhos, dourados e cor de rosa;

entra pelas verdes venezianas uma poeira luminosa,
uma poeira de sol, trêmula e silenciosa,

uma poeira de luz que aumenta a solidão.

Abre a tua janela de par em par. Lá fora, sob o céu de verão,

Todas as árvores estão cantando! Cada folha
é um pássaro, cada folha é uma cigarra, cada folha é um som...

O ar das chácaras cheira a capim melado,
a ervas pisadas, a baunilha, a mato quente e abafado.

Poeta dos trópicos,
dá-me no teu copo de vidro colorido um gole d’água.
(Como é linda a paisagem no cristal de um copo d’água!)  


Fonte bibliográfica:

"Interior" (de "Epigramas Irônicos e Sentimentais" - 1922) em "Ronald de Carvalho - Poesia e Prosa", por Peregrino Júnior, da Coleção Nossos Clássicos, sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Correa. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1960. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Ronald de Carvalho – dados biográficos


1893 – 16 de Maio – Nasce no Rio de Janeiro, em Botafogo, à Rua das Palmeiras, Ronald de Carvalho, filho do Capitão-Tenente Engenheiro Naval Artur Augusto de Carvalho e de D. Alice Paula e Silva de Carvalho.

1894 – Perde o pai e um tio fuzilados pelos florianistas de Santa Catarina (revolta de Custódio José de Melo).

1899 – 1907 – Concluídos os primeiros estudos em casa do avô, Sr. João Francisco de Paula e Silva, cursa o primário e o secundário no Colégio Abílio.

1907 – 1912 – Cursa a Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, juntamente com Alceu de Amoroso Lima, Carlos Ouro Preto, Mário Simonsen, Tomás Accioly Filho e outros. Colabora com “A Época”.

1910 – Estreia na Imprensa, colaborando no “Diário de Notícias” de Rui Barbosa.

1913 – Encontra, em Paris, Filipe de Oliveira, Álvaro Moreira, Alceu Amoroso Lima, Rodrigo Otávio Filho, que são seus companheiros de todos os dias. Publica “Luz Gloriosa” nas oficinas da Casa Crès et Cie., que seria lançada no Rio de Janeiro em setembro do ano seguinte.

1914 – Participa em Portugal do grupo de “Orfeu”. Conhece Fernando Pessoa, que lhe faz longa carta sobre “Luz Gloriosa”, e mantém com ele importante correspondência literária. Torna-se amigo de Mário de Sá Carneiro e de Luiz de Montalvor. De volta ao Brasil é nomeado praticante da Secretaria do Ministério das Relações Exteriores, onde trabalha com Alceu Amoroso Lima. Casa-se com D. Leilah Accioly.

1919 – Publica “Poemas e Sonetos” (prêmio da Academia Brasileira de Letras) e “Pequena História da Literatura Brasileira”.

1922 – Fevereiro: participa da “Semana de Arte Moderna” em São Paulo. Publica “Epigramas Irônicos e Sentimentais”.

1923 – Viagem por México e Estados Unidos. Publica “Espelho de Ariel”.

1924 – Publica “Estudos Brasileiros” (1ª série). É nomeado Diretor em comissão da Seção de Negócios Políticos e Diplomáticos da Europa, no Itamarati.

1926 – Viagem ao Peru, Cuba e Estados Unidos. Publica “Jogos Pueris” e “Toda a América”, ilustrados ambos por Nicola de Garo.

1930 – Responde pelo expediente do Ministério das Relações Exteriores nos primeiros dias da vitória da Revolução, a mando do General Tasso Fragoso. É nomeado Primeiro Secretário da Embaixada em Paris.

1931 – Eleito “Príncipe dos Prosadores Brasileiros”. Publica “Estudos Brasileiros” (2ª e 3ª séries) e “Rabelais e o Riso do Renascimento”.

1932 – Designado para Encarregado de Negócios na Legação do Brasil na Holanda.

1934 – De volta ao Brasil é promovido, sucessivamente, a Ministro Plenipotenciário de segunda classe, Secretário do Chefe do Governo Provisório e Chefe da Casa Civil do Presidente da República.

1935 – 19 de janeiro – Vítima de grave colisão de automóveis, vem a falecer a 15 de fevereiro, tendo sido sepultado no Cemitério de S. João Batista, com grandes honras.

Fonte bibliográfica:
Ronald de Carvalho – Poesia e Prosa, por Peregrino Júnior. Coleção Nossos Clássicos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Correa. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1960.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Um texto de Coelho Neto

Texto de “A Capital Federal” de Coelho Neto, com comentários e notas por Octavio de Faria (1963).

A CAPITAL FEDERAL: A Capital Federal (1893) narra os primeiros contatos de Anselmo Ribas (entenda-se Coelho Neto) com o Rio de Janeiro. Encontra-se ele em visita à casa de seu abastado tio, Serapião Ribas, que se propõe fazê-lo conhecer a Cidade. E, logo ao primeiro passeio, é diante da famosa Rua do Ouvidor que é colocado. Assistimos à sua “reação” que não será senão uma amostra da decepção que o trará de volta à terra natal, desfazendo-se assim ante seus olhos críticos a “miragem” da Capital Federal.

   O cocheiro inglês, magro, raspado, retesou-se na boleia tenteando as rédeas para sofrear o cavalo negro que pinoteava.
   – S. Francisco[1] – disse secamente meu tio e logo rodamos[2].
   Estiquei as pernas mergulhando os pés no pelego[3] felpudo.
   – Não fumas, Anselmo? E as mãos papudas ofereciam-me charutos.
   Esgazeado e hirto de espanto entalei-me no fundo do carro. Pois meu tio... a oferecer-me charutos...! “É uma cilada”, disse comigo.
   Meu pai, com a sua moral primitiva, entende que fumar é um vício execrando para os moços, principalmente em presença dos mais velhos. Em casa, quando me tenta o desejo de tragar uma fumaça, corro ao meu quarto e fecho-me ou desço ao pomar para não ir de encontro ao preceito paterno, que é uma herança dos maiores. Educado em princípios de tanta austeridade, agradeci os charutos. Meu tio, porém, insistiu:
   – Fuma, homem; já não és criança – disse em tom cheio de sinceridade, que varreu do meu espírito o resto de escrúpulos – Fuma. – E entregou-me um charuto.
   Ainda assim, senti certo vexame, ele, porém, insistiu novamente, animando-me.
   – Não tem fósforos?
   – Sim, meu tio; tenho aqui.
   Acendi o charuto e baforei para o mar a primeira fumaça dando as primícias do meu havana ao respeito, como os antigos pastores ofereciam a Deus as primícias de seus rebanhos, depois recostei-me, fumando ante as barbas grisalhas do irmão de meu pai.
   O Rio começava a aparecer-me. A vitória corria cruzando-se com os outros carros elegantes, onde iam senhoras faustosamente vestidas. Dos bondes espiavam-nos com interesse curioso. Eu encolhia-me para que me não vissem; ia ali assim como um deus num nicho, apenas visível para os que, como eu, passavam luxuosamente em carruagens e que nos procuravam reconhecer. Meu tio, habituado ao luxo, ia indiferente, todo preocupado com o seu charuto; eu não: mostrava-me, queria que as mulheres olhassem para o meu rosto rosado e fresco, para os meus olhos femininos, para os meus lábios purpúreos e carnudos, para os meus bigodes sedosos, para o meu largo peito forte, e que reconhecessem em mim um modelo de homem, um remanescente da idade morta, quando a força era divinizada e o músculo merecia poemas; um sólido e másculo exemplar de sertanejo capaz de amá-las com mais ardência e com mais impetuosidade do que esses rapazes pálidos, de olhos tristes, que passavam acabrunhados e exaustos, sem viço, sem entusiasmo, frouxos e melancólicos, sugados pelo vampiro da anemia, derreados pelas vigílias devassas.
   A vitória parou. Saltamos e eu, curioso de ver e de admirar maravilhas, olhei em volta. Era uma grande praça quadrada e clara, murada pelos edifícios que reverberavam à luz radiante do sol. Ao meio, sobre pedestal negro, a estátua tosca de um homem, em atitude cheia de solenidade, a mão estendida em gesto clássico de tribuna, como a alegoria icônica do meeting que é, em nossos dias, cultos e morigerados, o escoadouro da inofensiva indignação das massas. Meu tio, indicando-me a efígie escura, disse:
   – José Bonifácio, o patriarca da nossa independência e da tribuna dos comícios.
   Admirei reverente o patriarca, rijo, inflexível, imóvel no seu molde perpétuo de bronze, como a imagem do patriotismo isolada na vasta ágora[4], para exemplo das gerações. Meu tio, descrevendo com o seu unicórnio[5] um hemiciclo no ar, falou para despertar o meu civismo:
   – Olha, Anselmo, de um lado a religião, Deus e o mistério. É a ala santa do perímetro do nosso patriota – e levantou a bengala.
   Meus olhos seguiram a sua indicação e viram no alto da torre um galo rutilante. Tive ímpetos de pedir a significação emblemática. Seria, por acaso, a figuração do bicho que cantou três vezes despertando a consciência de Pedro na grande noite de Getsêmani? Mas meu tio já havia baixado a bengala.
   – Aquilo que ali vês ao fundo, Anselmo, é a ciência.
   Um casarão alvadio com terraço à frente. Mal tive tempo de admirar porque a voz grave do cicerone já pronunciava:
   – À direita, o comércio, a indústria, o movimento.
   Com efeito a vida parecia decorrer do ponto indicado – bondes chegavam despejando gente, partiam cheios; carros cruzavam-se: era um vozear confuso, indistinto – pregões, apelos, silvos, tilintar de campainhas, brados. Olhei atordoado. Meu tio voltara-se para a estátua e contemplava-a extático.
   – Grande homem! – disse eu.
   – Grande patriota! – acrescentou meu tio e voltou-se com a bengala a fundo, risonho, mostrando-me uma rua em frente:
   – Conheces?
   – Não, meu tio, mas noto que está cheia de gente – parece que vem por aí abaixo um oceano popular para revinditas.
   – É sempre assim – disse e, com lentidão, abriu a sobrecasaca e tirou do bolso profundo maço de papéis.
   O sol abrasava pondo-me pruridos na carne e meu tio, calmo e tranquilamente, suando e resfolgando [6], consultava os papéis. Por fim atafulhou[7] com o maço no bolso e, vagarosamente, desdobrou diante de meus olhos uma folha de papel azul e, indicando-me uma frase com o dedo grosso, sorriu mirando-me. Era uma carta minha e o que ali estava debaixo do pesado e úmido indicador, era apenas isto: – “ver a Rua do Ouvidor”. Sem ler mais, estremecendo, cravei os olhos na rua... E, sem uma palavra, mudo, abatido, como se me tivessem dado uma notícia de morte, suspirei.
   – Uma surpresa, hem?
   – Uma desilusão, meu tio – disse eu, murcho.
   Mas o sol ardia. Quase torrados fomos caminhando para a desilusão, porque ali, ao menos, havia sombra e fresco. Eu ia consternado.
   – Mas então... que te parece?
   – A mim?
   – Sim...?!
   – Ah! Meu tio... Pode ser que esta rua seja uma maravilha, mas infelizmente, antes de vê-la, antes de pisá-la, eu a sonhara... e o sonho, que é a visão do mistério, vai sempre além da realidade.
   – Então... que esperavas tu?
   – Eu? Uma avenida como as que tenho admirado em gravuras, como as que tenho visto descritas: com grandes casas apalaçadas, ruas cuidadosamente calçadas de mármore... arquitetura e gosto, arte e elegância, e largueza, sobretudo, meu tio; largueza, muita largueza.
   Um velhinho magro, esgrouviado[8] com um amplo casaco cor de castanha, surrado, tomou a frente a meu tio, estendendo-lhe ambas as mãos, pálidas como as de um cadáver. Encostaram-se a uma vitrina. O velho sacou do bolso enorme carteira e foi desdobrando papéis, cochichando, com risinhos. Meu tio aprovava com ar digno, coçando o papo.
   Parado em meio da rua, olhando, eu sentia caírem dentro de mim, um a um, todos os meus sonhos ingênuos de roceiro. A multidão cruzava-se em formigamento ativo; grupos chocavam-se. Havia constantemente um chapinhar[9] de solas, frufru de sedas e, de longe, como hausto[10] perene e sôfrego, vinha um aaah surdo. De vez em vez parecia-me ouvir o rumor cadenciado e longínquo do desfilar de exércitos.
   Sentia-me atraído pelo luxo dos mostradores. Meus olhos esmerilhavam, rebuscavam, examinando as casas, da soleira à cimalha, penetrando-as, varejando-as indiscretamente com ânsia de imprevistos, com avidez de novidades... Ó divinos jardins suspensos! Ó avenidas de loureiros e de anêmonas! Como estais longe da esplêndida passagem que meus olhos viam em arroubos, quando me punha a pensar nesta viagem ao Rio e realizava, embevecido, de olhos fechados, deitado na relva, tamborinando no ventre, o meu passeio elegante pela calçada de mármore branco, refrescada, duas vezes ao dia, com esguicho de água de rosas. Não, decididamente eu não tinha razão – o que eu estranhava não era a Rua do Ouvidor. Todo o pungitivo sentimento que me oprimia vinha da morte de uma ilusão. Para os que não viram, para os que não sonharam coisa melhor, a rua é admirável; mas para os que podem estabelecer confrontos, perdoa-me, artéria da civilização patrícia; perdoa-me, avenida da elegância e do espírito fluminense, não passas de viela atarracada e sórdida.
   O velhinho inclinou-se de novo com as mãos estendidas e meu tio voltou a ocupar junto a mim o seu posto de elucidário.
   – Então, Anselmo?
   – Estou procurando o encanto, meu tio.
   – Descansa, descansa, – disse-me tomando-me o braço – ele é que há de procurar-te.   
   – E, estacando, mostrou-me a rua com o mesmo gesto com que, em casa, do alto da casinhola, me havia mostrado o seu jardim: – Então isto não te impressiona?
   – Não, meu tio... e digo-o com sentimento.
   – Esperavas alguma coisa como o boulevard des Italiens[11], como a calle Florida[12] – acudiu Serapião, versado em guias.
   – Coisa melhor! Muito melhor!
   O elucidário lançou-me um olhar carregado de pasmo.
   – Contaram-me tantas maravilhas desta rua que não é muito que me confesse desiludido, porque o sentimento que, em verdade, subjugo é de indignação, a mais justa indignação contra todos quantos me atordoaram o espírito com exageradas fantasias e soberbas descrições de um fastígio incomparável. Em casa de Mariano Gomes, o Dr. Gusmão, promotor, que parava, de vez em quando, alguns níqueis no seu feminino palpite – a sota[13] – durante uma longa noite de azar e chuva, encurralando-me no vão de uma janela, falou-me, com sua eloquência de júri, longamente, calorosamente, acerca da Rua do Ouvidor, contando-me aventuras que havia gozado , em companhia de certo desembargador, homem culto e de gosto. Foi quem mais alarmou meu espírito ingênuo, foi esse órgão da justiça pública o mais perverso e cruel dos mistificadores.  O Pe. Coriolano que, de longe em longe vem gozar no Rio um mês de inverno, disse-me uma vez, em casa na Maria Balbina, que isto era como a Suburra[14] de que fala Horácio[15]: um lugar de vícios. Mariano Gomes, mais franco, explicou-me em frase sóbria e devassa: “Que para a pândega não havia igual...!” Mentiram todos: a lei, a religião e a batota. Isto é uma miséria! Nem aventuras, nem Suburra, nem pândega!
   – Espera, atende, acalma a fúria, Anselmo. Se ainda não a conheces! – disse meu tio com malicioso sorriso – a Rua do Ouvidor tem o seu segredo de atração e de enlevo como certas mulheres que, apesar de feias e avelhantadas, vivem perseguidas pelos admiradores. Hás de concordar: há mulheres tais. A razão? O motivo? Dize...
   Dei de ombros e meu tio explicou com arreganho:
   – Encantos particulares, Anselmo, coisas ...
   Depois recompondo-se voltou a falar com gravidade, fitando a rua:
   – Não é bela, concordo. Vê-se que não foi traçada por um Haussmann[16], mas lá encantos isso tem ela. É preciso viver, conhecê-la, penetrar-lhe o segredo. Não estou longe de pensar contigo. Isto é um beco.
   Um beco! – corroborei com desprezo.
   – Mas queres saber a razão principal da sua nomeada? – inclinou-se olhando-me vesgo – É que ela é o centro da vida nacional. – Descolamo-nos para respirar, ele, porém, puxou-me de novo: – Todos os grandes fatos da nossa política e da nossa literatura derivam da Rua do Ouvidor – ela é o estuário que recebe todas as correntes, o centro para onde convergem todas as forças ativas da nação e donde se escoa a seiva intelectual.
   – A seiva intelectual!... – exclamei recuando, e meu tio, impassível, acastelado na sua convicção, repetiu abanando com a cabeça:
   – Pois não... pois não, seiva intelectual. – E continuou: – Tens ali a imprensa, – e levantou a bengala para uma sacada onde havia uma comprida tabuleta negra com grandes letras brancas e, passeando a bengala como um ponteiro, prosseguiu: – o comércio, a indústria. – Firmou-se passando o lenço pela fronte gotejante: – O câmbio, as leis, tudo quanto orienta e desorienta o Brasil sai daqui.
   – É o laboratório – comentei com ironia, e meu tio aceitou:
   – O laboratório, pois não. Mais ainda, vou mais longe. A meu ver a nossa forma de governo é a Rua do Ouvidor; a nossa religião é a Rua do Ouvidor – as constituições, os figurinos e os atos de fé saem deste beco. Isto é a pia lustral que consagra os fatos e os homens. Esta rua ecoa todos os sucessos do mundo como na vida fisiológica o cérebro, por um fenômeno de repercussão nervosa, reflete todas as sensações do corpo. – Cansado do rasgo científico, aspirou largamente e tossiu, mas a facúndia[17] voltou: – As mulheres, para imporem a formosura, descem e sobem a rua várias vezes. Há um talento prodigioso por aí além... Quem o conhece? Ninguém! Quantos poetas vivem ignorados por esses recantos, sem jamais alcançarem a glória da publicidade?
   – Simão Carreira...
   – Sim, o Simão... Há por acaso alguém que conheça o Simão?
   – Eu, meu tio. Conheço-o e admiro a sua inspiração, sempre nova e fértil.
   – Mas... tu és uma parcela insignificante. Para imortalizar um homem só o sufrágio coletivo, e a urna aqui está. Tenho certeza de que o Simão, com um dia de Rua do Ouvidor, faria mais pela glória do seu estro do que tem feito com 28 anos de trabalho modesto no canto obscuro do Tamanduá, entre os milhos. Bastava que recitasse dois ou três sonetos. – E meu tio alongou o braço: – O caminho da glória é este, Anselmo.
   – Não é feito de rosas, meu tio!
  Davam três horas e o calor escaldava. Meu tio propôs um grog[18] gelado, no Pascoal[19]. Íamos caminhando lentamente quando dei com os olhos em uma esplêndida mulher loura, alva e rosada, de preto. Nos cabelos dourados uma espécie de diadema régio, com duas cristas de penas vermelhas, como no gorro do Mefistófeles[20], que eu vira, em tempos, numa ilustração do Natal.
   – Linda mulher, meu tio!
   – Divina! – concordou ele estacando para admirar.
   A loura aproximava-se coleando[21] por entre a multidão, atraindo os olhos lúbricos, altiva, indiferente, com um andar soberbo de rainha, o colo farto escondido por enorme leque de plumas escuras, que ela agitava com languidez, como uma grande asa.
   Passou por nós e tive apenas o tempo de ver a cor inocente e doce de suas pupilas azuis, mais claras do que a celagem[22] da altura e ainda mais suaves, a boca, pequenina e vermelha, uma curva sanguínea e úmida. E o aroma que ficou à sua passagem, que delicioso!...
   – Linda mulher! – tornei voltando-me para admirar o airoso passo cheio de majestade e graça.
   – É uma escultura.
   – Uma escultura, meu tio. – E, trincando o beiço, nervoso, tornei à frase: – Linda mulher! Com efeito...
   Mas meu tio, que adiantara alguns passos, vendo-me parado a olhar, absorvido no vulto que desaparecia, chamou-me:
   – Vem daí. Vamos ao grog, que está quente a valer[23]



[1] Largo de S. Francisco, um dos pontos fundamentais, na época, de acesso ao centro da “Cidade”.
[2] O romance é escrito na 1ª pessoa – coisa rara na obra de Coelho Neto. Do mesmo modo: O Morto – que traz, aliás, o significativo subtítulo: Memórias de um Fuzilado. Seu herói não é, no entanto, Anselmo Ribas (isto é: o próprio Coelho Neto), mas Josefino Santos.
[3] Pele de carneiro.  
[4] Praça pública onde os gregos realizavam assembleias e distribuíam justiça.
[5] Que tem uma só ponta ou chifre – a bengala de Serapião Ribas.
[6] O mesmo que resfolegando, respirando. 
[7] Introduziu desordenadamente.
[8] Com o cabelo em desalinho.
[9] O bater da chapa em substância líquida ou pastosa, agitando-a.
[10] Sorvo, tirado para fora de lugar profundo.
[11] Uma das principais artérias de Paris.
[12] Idem, em relação a Buenos Aires.
[13] Nome popular dado à Dama nos baralhos.
[14] Via e bairro de Roma antiga, sobre o monte Esquilino, habitado pelo que era considerado de pior na Cidade – centro de prostituição romana.  
[15] Grande poeta latino (65-8 a.C.).
[16] Político e administrador francês (1809-1891) a quem Paris deve grande parte da sua remodelação urbana.
[17] Facilidade oratória, eloquência.
[18] Termo inglês significando uma mistura alcoólica (Hoje: grogue).
[19] Célebre confeitaria da época.
[20] Figura do Fausto, de Goethe, que personifica o demônio.
[21] Mover-se fazendo ziguezagues.
[22] Cor do céu ao nascer e ao por do sol, aparência atmosférica.
[23] O trecho reproduzido ocupa, em A Capital Federal, as págs. 59-73, parte do Capítulo V, da 5ª edição (1924), Lelo e Irmão.  

Fonte bibliográfica: "Coelho Neto - romance" por Octavio de Faria, da Coleção Nossos Clássicos, publicada sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 2ª edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1963. 

sábado, 29 de novembro de 2014

Coelho Neto – Estudo Crítico de sua Obra – Parte 2

(conforme texto de Octavio de Faria)

Essa obra enorme – mais de cento e vinte volumes, dos quais ainda alguns inéditos – tinha de ser, naturalmente, desigual. Nem há nada de espantar nisso. (É o exemplo dos grandes mestres, chamem-se eles Shakespeare, Balzac, Tolstoi, Dostoievski ou Camilo). Tanto mais quanto, como sabemos, foi quase toda ela realizada em condições de vida difíceis que obrigavam a uma produção intensiva e contínua, onde, muitas vezes, as correções, as supressões, o burilamento, a escolha, tornavam-se impossíveis.
Obra desigual, portanto, onde há que distinguir o essencial do que não o é, obras primas de livros simplesmente comuns, contribuições fundamentais para a literatura brasileira do que é apenas circunstancial, momentâneo: certos contos e apólogos, crônicos, sainetes, etc.
Não é aqui o momento de fazê-lo. Apenas, de afirmar que nenhum desses senões invalida, nem de longe que seja, o peso da obra total. (Como outros pequenos senões não conseguem atingir a grandeza das obras de Sheakespeare, Balzac, Tolstoi, Dostoievski ou Camilo). São “momentos”, pequenos fenômenos em si absolutamente naturais, desprovidos de significação maior, a que interessam apenas aos estudiosos, aos críticos, aos exegetas da obra de Coelho Neto.
Fiquemos, portanto, com as dezenas de obras de primeira qualidade, que nos legou e não nos deixemos também seduzir pelas acusações que contra elas foram formuladas, no tocante ao estilo.
Nenhuma dúvida: Coelho Neto não é um autor “fácil”. E não o é, sobretudo, para a nossa comum e moderna ignorância de língua portuguesa. Dono de um prodigioso vocabulário – calculado em mais de vinte mil palavras – sabendo manejá-lo e manejando-o com plena convicção do acerto com que o fazia, não podia deixar de se tornar “difícil de entender”, às vezes mesmo misterioso para a ignorância de muitos.
Um empolado? Um gongórico? Um cego apologista do culto do estilo pelo estilo? Um escravo da forma? Todas essas acusações foram formuladas, exploradas. Fizeram delas mesmo o cavalo de batalha de mil condenações, às vezes levianas, às vezes ridículas. E foi preciso que o tempo e o bom senso dos críticos as dissipassem estrepitosamente para que a verdade enfim se restabelecesse a respeito do estilo de Coelho Neto.
É que, nesse estilo, ao longo de uma obra cuja publicação se estira por mais de quarenta anos, verifica-se uma verdadeira ascese literária que não é possível deixar de reconhecer ou não levar em consideração fundamental. De Rapsódias (1891) a, digamos, Fogo Fátuo (1928), toda uma alteração se processa que tem de ser vista, essencialmente, sob o prisma da depuração, da ascese estilística. E, de fato, os que não perdoam ao estreante de 1891 a gritante profissão de fé formalista: “Por ela o meu sangue, toda minha alma para resguardá-la – é o meu amor, é o meu ídolo, é o meu ideal – a Forma” (12), todos esses esquecem (propositadamente ou não) que foi em reação a esse fanatismo juvenil pela forma pura – quase sempre tingido de orientalismo e de fanatismo – (13) que Coelho Neto partiu para isso que podemos chamar as suas teorias básicas: a teoria da palavra e a teoria do “termo exato”.
Ouçamo-lo se explicar, pois melhor que ninguém o fez quando declarou, na entrevista concedida a João do Rio, no início do século XX: “Tenho a respeito da palavra uma teoria: a palavra falada é a palavra viva, livre, solta de todas as cadeias, capaz de por si só definir, pintar, colorir; a palavra escrita é a palavra agrilhoada, morta, sem a expressão imediata. A primeira tem a intenção que é tudo e a inflexão que é a realidade da intenção. (...) A palavra escrita vive do adjetivo, que é a sua inflexão. Daí a grande necessidade de disciplinar o vocabulário” (14). E um pouco mais adiante completa o seu pensamento: “A questão não é de vocabulário; é de disciplina. Os russos têm uma porção de dicionários de soldados e para nada lhes serve o possuí-los. Eu consegui disciplinar o vocabulário. Dada uma certa impressão, concluída uma ideia, posso sentar-me e escrever. A ideia sai vestida e os termos exatos juntam-se no perfeito reflexo da impressão. Estou a tomar uns ares dogmáticos... Perdoa. É quase uma confissão. Vem desse esforço que foi pouco a pouco desbastando do meu estilo os guizos de muitos adjetivos para substituí-los por um só, exato” (15).
O termo exato... Eis, sem a menor dúvida, o eixo básico da evolução de Coelho Neto como escritor. Consciente da insuficiência da palavra escrita, tentou animá-la, colori-la, vivificá-la, dar-lhe a inflexão sem a qual jamais poderia exprimir adequada, exata, perfeitamente, o que ia na sua mente prodigiosamente rica e variada. Para tudo e em todas as ocasiões, buscou a palavra exata diante dela não recuou, usando termos raros, absolutamente inusitados, terrivelmente difíceis. Que importava? Não estava sendo fiel, integralmente fiel ao princípio de um de seus grandes mestres, do Maupassant que ensinava: “Seja o que for que se pretenda exprimir, não há senão uma palavra para o dizer, um verbo para o animar, e um adjetivo para o qualificar”?
Se não conseguimos acompanhar Coelho Neto, se muito frequentemente não conhecemos o “termo exato” de que se serve – como também não conhecemos muitos dos “termos exatos” de Camilo, de Euclides da Cunha, de Rui Barbosa, de Aquilino Ribeiro, de outros – de quem a culpa senão nossa que tão mal conhecemos o que é nosso – essa língua que tão bem devíamos “possuir” porque a recebemos como herança sagrada  e a deixamos ficar, quase abandonada, quase esquecida, quase como alguma coisa que não fosse o legado supremo dos Camões e dos Vieiras?
E, para remediar um pouco esse erro, essa culpa, essa fuga, que solução melhor do que volver um pouco os olhos para o que Coelho Neto escreveu e lê-lo, realmente lê-lo, sem o preconceito do que preferiram renegá-lo ou a má fé do que, não podendo compreendê-lo, resolveram ignorá-lo?

12 – Coelho Neto. Rapsódia.
13 – Nesse sentido, vejam-se os depoimentos fundamentais do próprio autor, em A Conquista, págs. 287 e 294-7.
14 – João do Rio. “Coelho Neto”, em Momento Literário, pág. 54.
15 – João do Rio, idem, pág. 55.