domingo, 22 de junho de 2014

O valor da escrita à mão

Sobre o artigo
O que se perde quando a escrita à mão é deixada de lado
(What’s lost as handwriting fades)

Por Maria Konikkova, em 2 de junho de 2014, no New York Times.

A autora inicia com a pergunta: “A escrita à mão importa?”
Em seguida responde: “Não muito, conforme vários educadores”. Prossegue então a autora, dizendo que o padrão “Common Core”, que é adotado na maioria dos Estados Americanos, propõe o ensino de uma escrita legível, mas apenas na pré-escola e no primeiro ano do primeiro grau. Após isso, a ênfase muda rapidamente para a proficiência no teclado.
Mas psicólogos e neurocientistas dizem que ainda se está longe de declarar a escrita à mão uma relíquia do passado. Novas evidências sugerem forte associação entre escrita à mão e desenvolvimento educacional mais amplo. Crianças aprendem a ler mais rapidamente quando primeiro aprendem a escrever a mão, além de se tornarem mais hábeis em gerar ideias e reter informação. Ou seja, não é só o que se escreve que interessa, mas também “como”.
Em seguida a autora menciona que o psicólogo Stanislas Dehaene, psicólogo do Collège de France em Paris, refere que quando escrevemos um único circuito neural é ativado e que há um reconhecimento essencial do gesto na palavra escrita, e parece que esse circuito contribui de forma única, de modo que aprender se torna mais fácil.
Um estudo de 2012 liderado por Karin James, psicóloga da Indiana University, deu reforço a essa visão. Crianças que ainda não aprenderam a ler e escrever foram apresentadas a uma letra ou uma forma e solicitadas a reproduzir em uma de três formas: traçar a imagem em uma página com linhas pontilhadas; desenhar em uma folha em branco; digitar em um computador. Foram então submetidas a um scanner cerebral e a imagem foi mostrada novamente. Os pesquisadores observaram que, quando as crianças desenharam a letra a mão livre, exibiram aumento da atividade em três áreas do cérebro que são ativadas em adultos quando eles leem ou escrevem. Por outro lado, as outras crianças tiveram uma ativação mais fraca dessas áreas. A Dra. James atribui essa diferença à irregularidade inerente à forma livre da escrita à mão, porque, deve-se planejar e executar uma ação (o que não é necessário quando se tem uma linha tracejada), que produz um resultado variável. Essa variabilidade pode ser ela mesma uma ferramenta de aprendizado. Dra. James refere que quando uma criança produz uma letra que tem forma irregular, isso pode ajudá-la a aprender a escrita dessa letra. O aprendizado cerebral de que um “A” é sempre um “A” com formas variáveis pode ser favorecido com o exercício da escrita a mão, do que com a repetição de uma única forma. Outro estudo da Dra. James mostra diferença entre crianças que traçam as letras e as que apenas observam as que escrevem; as primeiras ativam as áreas cerebrais relativas ao aprendizado.
A psicóloga Virginia Berninger, da Universidade de Washington, demonstrou que as várias formas de escrita estão associadas a diferentes padrões cerebrais. Quando as crianças escrevem à mão, produzem mais palavras mais rapidamente do que no teclado e expressam mais ideias. Imagens cerebrais confirmam conexão entre escrita, memória e geração de ideias.
Algumas pesquisas também sugerem que a escrita cursiva pode ajudar no treino da habilidade de autocontrole mais do que por outros métodos; também pode colaborar no tratamento de dislexia e de disgrafia.
TAMBÉM IMPORTANTE. Em adultos também escrever à mão pode colaborar a processar novas informações, incluindo a memória, bem como a capacidade de memorizar, e o aprendizado em geral.
Os psicólogos Pam A. Mueller de Princeton e Daniel M. Oppenheimer da Universidade da Califórnia, Los Angeles, relataram pesquisas que demonstraram que estudantes aprendem melhor quando tomam notas à mão, do que no teclado, porque fazem uso de um processo de manipulação e reflexão que podem levar a uma melhor compreensão.
Portanto, após a citação desse artigo, vamos aqui reforçar o grande valor da escrita à mão e revalorizar também aqui dois exercícios importantes e esquecidos: o ditado e a caligrafia.  


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Aluísio Azevedo - parte 3

Domingo no Cortiço

Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e pouco calor.
As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros e tabuleiros de roupa engomada saíam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das próprias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de cor. Desprezaram-se os grandes chapéus de palha e os aventais de aniagem; agora as portuguesas tinham na cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as brasileiras haviam penteado o cabelo e pregado nos cachos negros um ramalhete de dois vinténs; aquelas traçavam no ombro xales de lã vermelha, e estas de crochê, de um amarelo desbotado. Viam-se homens de corpo nu, jogando a placa, com grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma árvore, conversava ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhe murros, a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A casa da Machona estava num rebuliço, porque a família ia sair a passeio. A velha gritava, gritava Nenen, gritava o Agostinho. De muitas outras saiam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se harmônicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em quando interrompida por um ronco forte de trombone.
Os papagaios pareciam também mais alegres com o domingo e lançavam das gaiolas frases inteiras, entre gargalhadas e assobios. À porta de diversos cômodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornais ou livros; um declamava em voz alta versos de Os Lusíadas, com um empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia neles o prazer da roupa mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro bom de refogados de carne fresca, fervendo ao fogo. Do sobrado do Miranda só as duas últimas janelas já estavam abertas e, pela escada que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de águas servidas. Sentia-se naquela quietação do dia útil a falta do resfolegar aflito das máquinas da vizinhança, com que todos estavam habituados. Para além do solitário capinzal do fundo a pedreira parecia dormir em paz o seu sono de pedra; mas, em compensação, o movimento era agora extraordinário à frente da estalagem e à entrada da venda. Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem passava; ao lado delas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engomado ao pescoço, entretinha-se a chupar balas de açúcar, que comprara ali mesmo ao tabuleiro de um baleiro freguês do cortiço.
...............................                                                                   (De O Cortiço)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Aluísio Azevedo - parte 2

No panorama do romance brasileiro, a obra de Aluísio Azevedo, a partir de “O Mulato”, é a que melhor representa a escola naturalista.
Em língua portuguesa essa escola iniciou-se com “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz, publicado inicialmente na Revista Ocidental de Lisboa, em 1875, e no ano seguinte divulgado em livro. Esse livro abriu caminho também para uma luta contra o clero por meio do romance.
Paris, que deu o modelo do romance naturalista com Emile Zola, também inspirou o movimento anticlerical.
Seis anos depois da publicação de Eça de Queiroz, Aluísio Azevedo publicou “O Mulato” em S. Luís do Maranhão.
Filho do vice-cônsul português Davi Gonçalves de Azevedo, Aluísio revela desde cedo inclinação artística para o desenho e a pintura. Aos quatorze anos, depois de trabalhar no comércio, ele estuda pintura com Domingos Tribuzzi, artista italiano radicado em S. Luís. Em 1876 vai ao Rio de Janeiro para estudar na Academia Imperial de Belas Artes. Inicia aulas como ouvinte ao mesmo tempo em que, em 13 de maio, também trabalha como caricaturista em O Fígaro e O Mequetrefe. Concomitantemente surge o poeta que escreve:

Meu coveiro, já teu braço
Não te custa levantar?
Não te pede do cansaço
O corpo teu descansar?

- Não me pesa passageiro,
Não me custa trabalhar,
Ganho nisto meu dinheiro
Tenho gente a sustentar.

Este tom ultrarromântico como o poeta português Soares de Passos, de “O Noivado no Sepulcro”, não é o que melhor exprime o seu temperamento. Nesse período tem sua primeira investida contra o clero, em poema intitulado “A Missa”, endereçado a seus conterrâneos.
Com a morte de seu pai em 1876, vê-se obrigado a voltar a S. Luís. A partir de então deixa a pintura para ser escritor. Escolhe então a prosa e escreve seu primeiro livro: “Uma Lágrima de Mulher”. Sua narrativa de passa na Itália, terra de sua aspiração como estudioso de pintura, que não chegou a desfrutar como estudante.
Em junho de 1880 publica “O Mulato”, na tipografia de O País. O livro provoca surpresa e revolta em São Luís e aplausos na imprensa da Corte, o que o anima a partir para o Rio de Janeiro. A partir de então se consagra como escritor e publica vários livros.
Em 1895, embora consagrado como escritor, decide ingressar no emprego público, prestando concurso para a carreira consular, na qual ingressa aprovado com distinção, trocando agora sua atividade de escritor pela de vida consular.
Em 1913, ao falecer em Buenos Aires, nada mais tinha a dizer, no plano literário, o mestre que legara às letras de seu país pelo menos uma obra-prima: “O Cortiço”.  

Referência bibliográfica: Aluísio Azevedo - trechos escolhidos. Coleção Nossos Clássicos. Editora Agir, 1963. 



sábado, 24 de maio de 2014

Aluísio Azevedo – Dados biográficos

1857 – 14 de Abril – nasce em São Luís do Maranhão Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo, filho de Davi Gonçalves de Azevedo e Emília Amália Pinto de Magalhães.

1871 – depois de trabalhar no comércio como caixeiro, matricula-se no Liceu Maranhense e estuda pintura com Domingos Tribuzzi, artista italiano radicado em São Luis.

1876 – com o propósito de estudar desenho e pintura na Academia Imperial de Belas-Artes, segue para o Rio de Janeiro, onde já se encontra seu irmão Artur, dois anos mais velho que ele. Nesse ano faz sua estreia como caricaturista em O Fígaro.

1878 – Regressa a São Luís por ter falecido seu pai.

1879 – Publica em S. Luís, na tipografia Frias, “Uma Lágrima de Mulher”.

1880 – Aparece em S. Luís a folha anticlerical “O Pensador”, de que Aluísio é um dos redatores.

1881 – Publica em S. Luís, na Tipografia de O País, “O Mulato”. Nesse mesmo ano, em plena controvérsia suscitada por seu romance, embarca para o Rio de Janeiro.

1882 – Publica, em folhetins em “A Gazetinha”, as “Memórias de um Condenado”, cujo título, ao sair em livro, é mudado para “A Condessa Vésper”. Nesse mesmo ano, na “Folha Nova”, inicia também em folhetins “Mistério da Tijuca”.

1883 – Publica, em folhetins na “Folha Nova”, Casa de Pensão.

1884 – Publica Filomena Borges.

1885 – Publica, em folhetins no “O País”, “O Coruja”.

1887 – Publica “o Homem”.

1890 – Publica “O Cortiço”.

1891 – Publica, em folhetins na “Gazeta de Notícias”, “A Mortalha de Alzira”.

1893 – Publica “Demônios”.

1895 – Publica “Livro de uma Sogra”. Nesse mesmo ano, depois de prestar concurso para a carreira de Cônsul na Secretaria do Exterior, é nomeado vice-cônsul em Vigo, na Espanha.

1897 – Publica, aproveitando contos de “Demônios”, o volume “Pegadas”. É transferido para Yokohama no Japão.

1899 – é nomeado cônsul em La Plata.

1903 – promovido a cônsul de segunda classe, é removido para Cardiff, na Inglaterra.

1910 – Promovido a Cônsul de primeira classe em Assunção, no Paraguai.

1911 – Adido comercial do Brasil na Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.

1913 – 21 de Janeiro: falece em Buenos Aires.   

Fonte bibliográfica: Aluísio Azevedo - trechos escolhidos. Coleção Nossos Clássicos, dirigida por Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Correa e Jorge Alvim de Sena. Editora Agir, 1963. 

domingo, 2 de março de 2014

Junito de Souza Brandão – Mitologia Grega

Introdução da obra “Mitologia Grega” de Junito de Souza Brandão.

Quando da gestão do Dr. Roberto Piragibe da Fonseca, em 1960, como Diretor da então Faculdade de Filosofia da PUC-RJ, conseguimos, após muita insistência, introduzir no Currículo de Letras a Cadeira de Mitologia Grega e Latina, que continua, até hoje, em plena vitalidade, e até mesmo com número excessivo de alunos... Ignoro se existe outra Universidade, no Brasil, que mantenha regular e curricularmente o Mito como disciplina, ao menos eletiva. Se não existe, é de todo lamentável, porquanto não se pode, a meu ver, estudar com profundidade a Literatura Greco-Latina e seu kosmos, seu “universo” multifacetado, sem um sério embasamento mítico, pois que o mito, nesse caso, se apresenta como um sistema, que tenta, de maneira mais ou menos coerente, explicar o mundo e o homem. Opondo-se ao logos, “como a fantasia à razão, como a palavra que narra à que demonstra”, logos e mytos são as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida e do espírito. O “logos”, sendo um raciocínio, procura convencer, acarretando no ouvinte a necessidade de julgar. O “logos” é verdadeiro, se é correto e conforme à lógica; é falso se dissimula alguma burla secreta (um “sofisma”)(1). O mito, porém, não possui outro fim senão a si próprio. Acredita-se nesse ou não, à vontade, por um ato de fé, se o mesmo parece “belo” ou verossímil, ou simplesmente porque se deseja dar-lhe crédito. Assim é que o mito atrai, em torno de si, toda a parte do irracional no pensamento humano, sendo, por sua própria natureza, aparentado à arte, em todas as suas criações. E talvez seja este o caráter mais evidente do mito grego: verificamos que ele está presente em todas as atividades do espírito. Não existe domínio algum do helenismo, tanto a plástica como a literatura, que não tenha recorrido constantemente a ele. “Para um grego, um mito não conhece limites. Insinua-se por toda parte (...). Reserva de pensamento, o mito acabou por viver uma vida própria, a meio caminho entre a razão e a fé... Até os filósofos, quando o raciocínio atingiu o seu limite, recorreram a ele como a um modo de conhecimento capaz de comunicar o incognoscível”(2).
De outro lado, sendo uma fala (3), um sistema de comunicação, uma mensagem, o mito é como que metalinguagem, já que é uma segunda língua na qual se fala da primeira. Não sendo um objeto, um conceito, uma ideia, o mito é um modo de significação, uma forma, um symbolon, acrescentaríamos. Donde não se pode defini-lo simplesmente pelo objeto de sua mensagem, mas pela maneira como a profere. “Metade da linguagem”, não é apenas a “literatura”, no caso em pauta a greco-latina, que não se pode explicar sem o mito, mas igualmente inúmeros fatos da língua. Se não mais é possível falar do “rapto de Helena” por Alexandre ou Páris, a não ser buscando fundo no mitologema quem era a “antiga deusa da vegetação” Helena e o significado de rapto, ainda mais que perpetrado por um príncipe outrora “exposto”; se não mais se poderia analisar a “Esfinge inquiridora” do Édipo Rei de Sófocles, a não ser partindo-se de sua morfologia primitiva de Íncubo, de demônio opressor erótico, e de alma penada; se não mais teria sentido expor os Doze Trabalhos de Héracles, impostos ao herói pela protetora dos “amores legítimos”, Hera, se não visse neles, entre muitos conteúdos, um longo rito iniciático, coroado pela apoteose, como semelhantemente aconteceu com Psiqué – assim também muitos fatos da língua ficariam reduzidos a meras palavras, se não se buscasse esclarecê-los através do mito e da religião. Como explicar, por exemplo, em latim, contemplari, “olhar atentamente para” e considerare, “examinar com cuidado e respeito”, desvinculados do sentido profundamente religioso de templum, “templo”, e sidus, “constelação”? Uma coisa é templum, templo, local , onde se aninham as estátuas dos deuses; outra, bem mais rica e nobre, é templum, espaço quadrado delimitado pelo áugure no céu e no chão, espaço em cujo interior o sacerdote tomava e interpretava os presságios. Donde contemplari, “contemplar”, é observar atentamente se os pássaros voam da esquerda para a direita (bom presságio) ou da direita para a esquerda (mau presságio). Sidus, -eris é constelação, donde considerare, “considerar” é examinar atenta e respeitosamente os astros e sondar-lhes as disposições”. Cícero já emprega a expressão sidera natalicia (De Diu., 2,43,91), “astros que presidem nascimentos” e determinam as sequências da vida dos que nascem sob sua tutela.
Pois bem, foi dentro desses cânones, que não são novos, buscando no mito o que ele tem de “permanente” em todas as culturas, que procuramos elaborar três volumes sobre Mitologia Grega. Não desprezamos os significantes de nenhum mito, mas investigamos com afinco e persistência o sentido de seu conteúdo. Partindo de um suporte meramente expositivo, mas podando-lhe com cuidado o romanesco, e escolhendo com mais cautela ainda a ou as variantes mais antigas e “autênticas”, tentamos ir bastante além, esmiuçando-lhe o simbolismo e, quanto possível, as significações psicológicas.
Após Freud, Jung, Neumann, Melanie Klein, Erich Fromm, Mircea Eliade, e isto para citar apenas alguns dos grandes pioneiros e seus seguidores, o mito enveredou por caminhos bem mais legítimos e genuínos: deixou de ser uma simples história da carochinha ou uma ficção, “coisa inacreditável, sem realidade”, para, como acentua Byington no Prefácio, “através do conceito de arquétipo, abrir para a Psicologia a possibilidade de perceber diferentes caminhos simbólicos para a formação da Consciência Coletiva”.
Se, a princípio, o estudo do mito nos interessou como um auxiliar poderoso e indispensável para uma melhor compreensão das línguas grega e latina e sobretudo de suas respectivas literaturas, a partir de 1982, quando começamos a trabalhar em dupla, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com o Psiquiatra e Analista Carlos Byington, é que percebemos com mais clareza o peso do mito, esse inesgotável repositório de símbolos, que realizam “a interação do Consciente com o Inconsciente Coletivo”. É exatamente esse “tipo de mito” que procuramos transmitir não só a nossos alunos de Departamentos vários da PUC-RJ, e em cursos anuais em nossa Cidade, mas particularmente a Universitários, Professores, Psicólogos, Psicanalistas, Psiquiatras e Analistas de São Paulo e da Unicamp, com muitos dos quais, e prazerosamente, vimos trabalhando, há quatro anos.
Na elaboração de Mitologia Grega, Volume I, após os sete primeiros capítulos, em que focalizamos mito e obra de arte, definição de mito e religião, estudo da religião pré-helênica, chegada à Hélade dos gregos indo-europeus e visão panorâmica dos poemas e deuses homéricos, tivemos que fazer uma séria e difícil opção. Por onde começar? Poderia ser por qualquer mito, já que este, além de não se enquadrar no tempo, é totalmente ilógico. Mas, como Hesíodo, poeta do século VIII a.C., portanto, cronologicamente, o segundo depois de Homero, nos legou, conforme se comenta no Capítulo VIII, duas obras preciosas com vistas à mitologia grega, Teogonia e Trabalhos e Dias, resolvemos,  por dois motivos, iniciar por ele. Primeiro, porque o poeta de Ascra colocou certa ordenação, ao menos genealógica, no confuso mito grego; segundo, porque, inteligentemente, fez coincidir o Caos, “massa confusa e informe”, que dá início à cosmoteofania, isto é, ao aparecimento do mundo e dos deuses, com o caos social da Idade de Ferro, em que vivia seu século. Nesse caso, o homem percorreu o caminho inverso ao dos deuses: da Idade de Ouro degradou-se até a Idade de Ferro... Temos, por conseguinte, dois caos. Partindo do primeiro, o poeta há de fazer com que do Caos, das trevas, se chegue a Zeus, à luz e sonha com a extinção do segundo: quem sabe se o homem, apoiado em Zeus, símbolo da dike, da justiça, não há de emergir do caos social para a luz? Da Idade de Ferro não há de retornar à Idade de Ouro?
Nossa Mitologia Grega, portanto, abrange três grandes momentos do mito helênico: o Volume I, após os sete primeiros capítulos de que já se falou linhas atrás, irá do Caos até as lutas de Zeus pelo poder; o Volume II, mais denso, partirá de Zeus, já como deus cosmocrata e “pai dos deuses e dos homens”, e se fechará no mito de Eros e Psiqué; o Volume III será consagrado ao Mito dos Heróis.
Na feitura de Mitologia Grega usamos algumas obras altamente especializadas no assunto, todas, por sinal, indicadas na Bibliografia Geral. Gostaríamos, todavia, de destacar o nosso manuseio constante, para interpretação da parte simbólica, do Diccionario de Símbolos, de J.E.Cirlot, do Dictionnaire des Symboles, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, e de Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque, de Paul Diel. No que se refere à interpretação psicológica, nossos guias principais foram Sigmund Freud, C.G. Jung, Erich Neumann e Gaston Bachelard.
Mitologia Grega deve muito a muita gente. Não apenas às pessoas que tanto me incentivaram e até reclamaram de meu natural festina lente, como a estimada amiga Rose Marie Muraro, que prefaciará o segundo colume; o jovem psicólogo José Raimundo de Jesus Gomes; colegas e alunos do Rio e de São Paulo, mas também àqueles que gentilmente me ajudaram manu laboriosa, como as Profas. Miriam Sutter Medeiros, Lea Bentes Cardoso e o universitário Fred Marcos Tallman, que se encarregaram da parte datilográfica; Silvia Elizabeth von Blücher, Augusto Ângelo Zanatta, Valderes Barboza e o já consagrado prof. Synval Beltrão Jr., aos quais fico devendo o penoso trabalho de organização dos índices do primeiro volume.
Esperamos, por fim, que os três volumes de Mitologia Grega cumpram as duas finalidades únicas que tivemos em mira ao redigi-los: cooperar para que as humanidades clássicas voltem urgentemente ao lugar que lhes compete e servir não só aos que lidam com a ciência da psique, mas também a quantos acreditam na perenidade do mito, que não é grego nem latino, mas um farol que ilumina todas as culturas.

Rio de Janeiro, 26 de abril de 1985.
Junito de Souza Brandão

Notas:
1 – sophismos – sofisma, aqui no caso, é um expediente enganoso e enganador.
2 – Grimal, Pierre. La Mythologie Grecque. Paris, PUF, 1952, p. 8sqq.
3 – Barthes, Roland. Mythologies. Paris, Éditions du Seuil, 1972, p. 137sqq. 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Junito de Souza Brandão – estudioso brasileiro a ser lembrado.


Há poucos meses foi feita uma avaliação do livro de minha autoria intitulado “Humanização da Medicina e seus Mitos”, de 2005, a pedido de uma editora, por um avaliador anônimo.
O avaliador foi muito crítico ao fato de eu ter usado como referência bibliográfica uma obra de Junito de Souza Brandão (a quem ele chamou de “Juanito”), de certa forma desqualificando esse estudioso brasileiro.
Parece que essa consideração teve uma dose de preconceito com um autor brasileiro, Junito, que se propôs a estudar um assunto de amplitude universal como a Mitologia Grega. A crítica ainda poderia se dever à menção bibliográfica, em livro de 2005, de um autor que morreu em 1995. O que diríamos estão de Jung que morreu em 1961? Talvez o avaliador não seja da área de Ciências Humanas, pois os métodos de estudo e pesquisa em Ciências Humanas não são os mesmos de Ciências Biológicas ou de Ciências Exatas, pois nestas se trabalha apenas com as publicações muito mais recentes, sob o permanente risco de não estar up to date. Além disso, devemos frisar que o livro “Humanização da Medicina e seus Mitos” não buscou esgotar o assunto Mitologia e centrou-se mais na questão da humanização em saúde e na sociedade. Como parece haver certo desconhecimento sobre Junito, vamos lembrar um pouco desse estudioso e sua obra.
Junito de Souza Brandão nasceu na cidade de Aperibé, no Estado do Rio de Janeiro, em 1924. Ele destacou-se na escola da zona rural, onde poucos concluíam o ensino fundamental. Nessa ocasião sua professora declarou que não tinha mais o que lhe ensinar, pois ele já tinha adquirido o mesmo conhecimento que ela. Passou então ao Colégio Anchieta de Nova Friburgo. Tornou-se bacharel em Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Rio de Janeiro em 1948.  Depois fez o Curso de Arqueologia, Epigrafia e História da Grécia na Universidade de Atenas. Era licenciado em Letras Clássicas. Fez também Curso de Direito. Fez Doutorado e Livre Docência em Literatura Grega. Lecionou na PUC do Rio de Janeiro, onde, em 1960, o Diretor do Curso de Filosofia criou a “Cátedra de Mitologia Grega e Latina”, uma inovação no país, chefiada por Junito.
Junito lecionou por 45 anos também em outras instituições além da PUC do Rio de Janeiro, como UERJ, Universidade Gama Filho, Universidade Santa Úrsula, PUC de São Paulo e na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, entre outras.
Sua obra mais famosa é “Mitologia Grega” em três volumes pela Editora Vozes. Outras obras são: “Teatro Grego: Tragédia e Comédia”; “Dicionário Mítico-Etimológico”; “Os Idílios de Teócrito e as Bucólicas de Virgílio”. Fez traduções do Grego: “Duas Tragédias Gregas: Édipo Rei (Sófocles), Hécuba (Eurípides)”; “O Cíclope (Eurípides)”; “As Rãs”; “As Nuvens e as Vespas (Aristófanes)”.
Foi membro da Academia Brasileira de Filologia, da Sociedade Propagadora das Belas Artes, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos, do Instituto Internacional de Heráldica e Genealogia. Foi também Diretor da Academia Brasileira de Teatro do Rio de Janeiro de 1956 a 1971.
Junito de Souza Brandão faleceu no Rio de Janeiro em 15 de Maio de 1995.
Carlos Byington, médico psiquiatra e analista junguiano, escreveu o prefácio de “Mitologia Grega”, onde, no último parágrafo, comenta sobre Junito de Souza Brandão: “Para encerrar, uma palavra diretamente sobre este livro e seu Autor. Esta obra nos traz o tesouro simbólico da cultura grega através de alguém que se dedicou ao seu estudo e ao seu ensino por mais de trinta anos. Quem já teve o privilégio de frequentar os cursos deste mestre, teve certamente a oportunidade de perceber que a delicadeza e o carinho com que transmite seus ensinamentos se respaldam na força do estudo, da pesquisa e da erudição. Junito de Souza Brandão, em sua vida dedicada ao ensino de culturas antigas, principalmente da greco-romana, tem expressado entre nós a essência do arquétipo do professor que tempera aquilo que transmite aos seus alunos com o amor que ele próprio sente pelo conhecimento transmitido. Ao proceder assim, o mestre se transforma em sacerdote, pois os fatos que ensina viram símbolos da atividade imemorial da humanidade em direção à totalidade através da cultura. É o produto desta dedicação de uma vida que temos à nossa frente. Desejo ao leitor bom proveito”.
Na nota da sétima edição de “Mitologia Grega”, de 1991, Junito acentuou ter feito modificações e acréscimos em sua obra, principalmente quanto aos aspectos etimológicos, que compilou na obra “Dicionário Mítico-Etimológico”, em dois volumes, pela Editora Vozes. Isso mostra seu contínuo aprimoramento enquanto viveu.
A PUC-Rio prestou homenagem a Junito de Souza Brandão em evento especial em 13 de Setembro de 2013.

Bibliografia consultada:
Brandão, J. S. – Mitologia Grega (3 volumes). Editora Vozes, 17ª edição, 2002.
Verbete sobre Junito de Souza Brandão no Sistema de Bibliotecas da PUC-Rio.

Verbete sobre Junito de Souza Brandão na Wikipedia. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um texto de Joaquim Nabuco

Massangana (1) - (parte 1)

(de "Minha Formação" - 1900)

O traço todo da vida é para muitos um desenho da criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber... Pela minha parte acredito não ter nunca transposto o limite das minhas quatro ou cinco primeiras impressões... Os primeiros oito anos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação, instinto ou moral, definitiva...
Passei esse período inicial, tão remoto, porém mais presente do que qualquer outro, em um engenho de Pernambuco, minha província natal. A terra era uma das mais vastas e pitorescas da zona do Cabo... (2) Nunca se me retira da vista esse pano de fundo que representa os últimos longes de minha vida. A população do pequeno domínio, inteiramente fechado a qualquer ingerência de fora, como todos os outros feudos da escravidão, compunha-se de escravos, distribuídos pelos compartimentos da senzala, o grande pombal negro ao lado da casa da morada, e de rendeiros, ligados ao proprietário pelo benefício da casa de barro que os agasalhava ou da pequena cultura que ele lhes consentia em suas terras. No centro do pequeno cantão de escravos levantava-se a residência do senhor, olhando para os edifícios da moagem, e tendo por trás, em uma ondulação do terreno, a capela sob a invocação de São Mateus. Pelo declive do pasto árvores isoladas abrigavam sob sua umbela impenetrável grupos de gado sonolento. Na planície estendiam-se os canaviais cortados pela alameda tortuosa de antigos ingás carregados de musgos e cipós, que sombreavam de lado a lado o pequeno rio Ipojuca. Era por essa água quase dormente sobre os seus largos bancos de areia que se embarcava o açúcar para o Recife; ela alimentava perto de casa um grande viveiro, rondado pelos jacarés, a que os negros davam caça, e nomeado pelas suas pescarias. Mais longe começavam os mangues que chegavam até à costa de Nazaré...Durante o dia, pelos grandes calores, dormia-se a sesta, respirando o aroma, espalhado por toda a parte, das grandes tachas em que cozia o mel. O declinar do sol era deslumbrante, pedaços inteiros da planície transformavam-se em uma poeira d’ouro; a boca da noite, hora das boninas e dos bacuraus, era agradável e balsâmica, depois o silêncio dos céus estrelados majestoso e profundo. De todas essas impressões nenhuma morrerá em mim. Os filhos de pescadores sentirão sempre debaixo dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o ruído da vaga. EU por vezes acredito pisar a espessa camada de canas caídas da moenda e escuto o rangido longínquo dos grandes carros de bois...
Emerson quisera que a educação da criança começasse cem anos antes dela nascer. A minha educação religiosa obedeceu certamente a essa regra. Eu sinto a ideia de Deus no mais afastado de mim mesmo, como o sinal amante e querido de diversas gerações. Nessa parte a série não foi interrompida. Há espíritos que gostam de quebrar todas as suas cadeias, e de preferência as que outros tivessem criado para eles; eu, porém, seria incapaz de quebrar inteiramente a menor das correntes que alguma vez me prendeu, o que faz que suporte cativeiros contrários, e menos do que as outras uma que me tivesse sido deixada como herança. Foi na pequena capela de Massangana que fiquei unido à minha.
As impressões que conservo dessa idade mostram bem em que profundezas os nossos primeiros alicerces são lançados. Ruskin (3) escreveu esta variante do pensamento de Cristo sobre a infância: “A criança sustenta muitas vezes entre os seus fracos dedos uma verdade que a idade madura com toda sua fortaleza não poderia suspender e que só a velhice terá novamente o privilégio de carregar”. Eu tive em minhas mãos como brinquedos de menino toda a simbólica do sonho religioso. A cada instante encontro entre minhas reminiscências miniaturas que por sua frescura de provas avant la lettre devem datar dessas primeiras tiragens da alma. Pela perfeição dessas imagens inapagáveis pode-se estimar a impressão causada. Assim eu vi a Criação de Miguel Ângelo na Sixtina e a de Rafael nas Loggie (4), e, apesar de toda a minha reflexão, não posso dar a nenhuma o relevo interior do primeiro paraíso que fizeram passar diante de meus olhos em um vestígio de antigo Mistério popular. Ouvi notas perdidas do Angelus na Campanha romana, mas o muezzin (5) íntimo, o timbre que soa aos meus ouvidos à hora da oração, é o do pequeno sino que os escravos escutavam com a cabeça baixa, murmurando o Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o Millet (6) inalterável que se gravou em mim. Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas se quero lembrar-me dele, tenho sempre diante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou diante de mim, verde e transparente como um biombo de esmeralda, um dia que, atravessando por um extenso coqueiral atrás das palhoças dos jangadeiros, mas achei à beira da praia e tive a revelação súbita, fulminante, da terra líquida e movente... Foi essa onda, fixada na placa mais sensível do meu kodak infantil, que ficou sendo para mim o eterno cliché do mar. Somente por baixo dela poderia eu escrever: Thalassa! Thalassa! (7)
Meus moldes de ideias e de sentimentos datam quase todos dessa época. As grandes impressões da madureza não têm o condão de me fazer reviver que tem o pequeno caderno de cinco a seis folhas apenas em que as primeiras hastes da alma aparecem tão frescas como se tivessem sido calcadas nesta mesma manhã... O encanto que se encontra nesses cidoli (8) grosseiros e ingênuos da infância não vem senão de sentirmos que só eles conservam a nossa primeira sensibilidade apagada. Eles são, por assim dizer, as cordas soltas, mas ainda vibrantes, de um instrumento que não existe mais em nós...
Do mesmo modo que com a religião, e a natureza, assim os grandes fatos morais em redor de mim. Estive envolvido na campanha da abolição e durante dez anos procurei extrair de tudo, da história, da ciência, da religião, da vida, um filtro que seduzisse a dinastia; vi os escravos em todas as condições imagináveis; mil vezes li a Cabana do Pai Tomás (9), no original da dor vivida e sangrando; no entanto a escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infância, em uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior de minha vida. Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual abraça aos meus pés suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque, o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida... Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava.
Nada mostra melhor do que a própria escravidão o poder das primeiras vibrações do sentimento... Ele é tal, que a vontade e a reflexão não poderiam mais tarde subtrair-se à sua ação e não encontram verdadeiro prazer senão em se conformar... Assim eu combati a escravidão com todas as minhas forças, repeli-a com toda a minha consciência, como a deformação utilitária da criatura, e na hora em que vi acabar, pensei poder pedir também minha alforria, dizer o meu nunc dimittis (10), por ter ouvido a mais bela nova que em meus dias Deus pudesse mandar ao mundo; e, no entanto, hoje que ela está extinta, experimento uma singular nostalgia, que muito espantaria um Garrison (11) ou um John Brown (12): a saudade do escravo.
É que tanto da parte do senhor era inscientemente egoísta, tanto a do escravo era inscientemente generosa. A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o, como se fosse uma religião natural e viva; como os seus mitos, sua legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte... É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leite preto que me amamentou; ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância; aspirei-a da dedicação de velhos servidores que me reputavam o herdeiro presuntivo do pequeno domínio de que faziam parte... Entre mim e eles deve ter-se dado uma troca contínua de simpatia, de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste com o instinto mercenário da nossa época, sobrenatural à força de naturalidade humana, e, no dia em que a escravidão foi abolida, senti distintamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possível.  
Notas:
1 – Massangana era o nome do engenho em Pernambuco onde Nabuco passou os primeiros anos de sua vida aos cuidados de sua madrinha Dona Ana Rosa Falcão de Carvalho. Sua família residia no Rio de Janeiro (onde seu pai foi deputado e ministro).
2 – Cabo de Santo Agostinho.
3 – John Ruskin, escritor inglês que se dedicou especialmente a assuntos de estética em que teve grande influência na era vitoriana.
4 – Célebres galerias no Palácio do Vaticano, pintadas por Rafael.
5 – Árabe anunciador muçulmano da hora da oração.  
6 – Jean-François Millet (1814-1875), pintor francês, autor do célebre quadro l’Angelus, representando camponeses em oração ao por do sol.
7 – Exclamação de alegria dos dez mil gregos dirigidos por Xenofonte quando viram o mar, após dezesseis meses de retirada.  
8 – Grego. Plural de cidolon: figura, imagem.
9 – Cabana do Pai Tomás, Uncle Tom’s Cabin, romance de Harriet Beecher-Stowe sobre a escravidão nos Estados Unidos, do qual o Presidente Lincoln teria dito que provocou a guerra entre os Estados.
10 – Nunc dimittis servum Domine: “Agora despede o teu servo, Senhor”. Palavras do velho Simeão ao ver no templo o infante Jesus que reconheceu como o salvador de Israel.
11 – William Lloyd Garrison, célebre abolicionista americano.
12 – Abolicionista americano. Condutor de uma escaramuça contra Harper’s Ferry em 1859 que foi o início da Guerra da Secessão. Preso pelos Sulistas, foi enforcado em Charlestown, West Virginia.