sábado, 1 de julho de 2017

Escritor Matias Aires – contexto histórico e estudo crítico


Contexto histórico

     Matias Aires é um homem do século XVIII e um homem que teve contatos com o mundo europeu, donde a necessidade de sua localização histórica dever fazer-se, preliminarmente, em função da Europa. Produzindo obra de pensamento, torna-se óbvio que a situação histórica em que se envolverá acarreta uma apresentação da própria história do pensamento humano no século XVIII.
     Século rico de movimentos ideológicos e intelectuais, o século do Iluminismo e do Rococó tem a seu favor constituir uma etapa decisiva da evolução do pensamento ocidental. O século XVIII parece, à primeira vista, uma época de prazeres. As telas de Fragonard, continuando Watteau, apresentam-nos uma sociedade saciada e fútil, à procura de prazeres imediatos, de luxo e amor fácil; porém o século era, na sua estrutura básica, apesar do minueto que se dançava nos ricos salões de Luís XIV, uma época que, no setor do pensamento humano, representava o ápice de um longo processo intelectual para a consolidação definitiva de uma ideologia sustentada há séculos, com inúmeros esforços, pela classe burguesa.
     Para o entendimento deste processo ideológico, é necessária a recapitulação das lutas burguesas, obrigando-nos mesmo a um recuo aos tempos medievais, pois é na disciplinada e estática sociedade feudal que surgiu, revolucionário, no Mercado e na Cidade, “o burguês”, cujo padrão de vida era oposto aos ideais de vida do Castelo, pois exigia preliminarmente liberdade, dada a função de fazer ressurgir o comércio e ter lucros, e tinha de destruir o entrave da vida feudal, então caracterizada por uma economia local e de subsistência.
     Foi o “movimento burguês” que corroeu a sociedade feudal. Para isso lhe foi necessário criar uma filosofia social sua. No longínquo século XII, já surgia uma chamada burguesia legista, que recuperava o Direito Romano, na forma bizantina, dando a arma ideológica para o esforço dos reis que tentavam erguer-se num novo poder centralizador.
     É no século XVI que se consolida o processo, e podemos observar pela primeira vez uma vitória burguesa com a formação de vários estados fortes na Europa: Portugal de D. Manuel, Espanha de Felipe II, a França de Francisco I e Henrique IV e a Inglaterra dos Tudor, representam o esfacelamento completo do sistema feudal (Não foram sem lutas os últimos anos: os Tudor entraram no poder por meio da sangrenta guerra das Duas Rosas, vencendo e ganhando a Coroa numa típica guerra feudal terminada em 1485; na França, o habilidoso Luís XI vencera, em guerra interna, a Carlos o Temerário, o último dos Grandes Senhores, então Duque de Borgonha, e na Espanha os reis católicos, de Castela e Aragão, Fernando e Isabel, realizavam a última Cruzada contra os mouros, vencendo Granada em 1492).
     Porém, os monarcas do Absolutismo não terminavam uma sociedade: sobrepunham a ela novos costumes, deixando prevalecer privilégios da nobreza antiga, que agora adaptada, transformara-se numa “nobreza de robe”, isto é, servidora imediata do rei que a substituía, com novos privilégios, à antiga classe agrária-feudal.
     A burguesia tinha, assim, uma vitória no estado centralizado e um entrave na nova classe surgida, que então, dado o incremento da política Mercantilista, criadora de Monopólios, tornara-se a manobradora desta nova economia, intimamente ligada com a alta burguesia mais ou menos enobrecida. Os exemplos são tirados em Portugal de D. João III, e na Espanha de Carlos V, preocupados com Monopólios nas Índias e Américas, e a política francesa desde Sully até Colbert.
     O século XVII torna-se um século pessimista. As duas correntes clássicas de pensamento – burguesa e nobre – sentiam-se numa luta final pela sobrevivência. O estado absoluto, arma de dois gumes, atirara definitivamente uma contra a outra, ora se valendo do Mercantilismo, ora das doutrinas fisiocráticas que viam a riqueza apenas nas dádivas do solo. Além disso, a política mercantilista e monopolizadora do Estado, intervindo na economia, cerceava a liberdade da iniciativa privada, ideal máximo do burguês.
     Na Inglaterra, a luta entre a nobreza e a burguesia tem as suas ideias formuladas mais claramente. A nobreza, querendo agora o estado forte, e a burguesia o estado liberal. Hobbes e Locke serão os dois porta-vozes das ideias em que se digladiaram, no século XVIII, nobreza e burguesia. Hobbes dava, em defesa do absolutismo Stuart, dentro de princípios novos e na crença do Contrato Social, os alicerces da teoria materialista do absolutismo, que iria somar-se às ideias do Direito Divino espalhadas por Bossuet na França. Já Locke, partindo da mesma premissa do Contrato Social, porém interessado em dar lastro teórico à revolução de 1688, que derrubara definitivamente o absolutismo inglês, ao destronar o último Stuart, esboçava toda a teoria do liberalismo. Na própria Inglaterra, também surgirá o economista Adam Smith que apresentaria as normas clássicas da Economia burguesa, justificando a Livre-Concorrência e a Lei da Oferta e da Procura.
     A necessidade mais premente desta liberdade burguesa é o Liberalismo que surgirá vigoroso no século XVIII, liberalismo que admite inclusive o soberano absoluto, desde que o mesmo se sirva do absolutismo para criar o mundo burguês. Isto explica o fenômeno conhecido como o “Despotismo Esclarecido”, lembrando-se que os déspotas foram admirados e eram admiradores dos principais pensadores revolucionários do liberalismo: Catarina II manteria correspondência com Diderot e Voltaire, e este é amigo do Imperador Frederico II.
     É este o ambiente que Matias Aires encontrará na Europa e mesmo em Portugal, ,então governado pelo Marquês de Pombal, aplicando a forma lusitana do Despotismo Esclarecido (sem o que talvez não fosse nem mesmo possível a publicação de um livro como as Reflexões). E na França encontra o Liberalismo revolucionário em fermentação e, ante esse quadro, uma nobreza que, convicta da decadência, vive a vida com a rapidez e a futilidade rococó dos famosos quadros de Fragonard.
     Matias Aires, como os homens de sua geração, se apresenta ante um mundo convulso cheio de novas ideologias – ante o utopismo que se representará mais tarde principalmente com Jean Jacques Rousseau, ante a crença dos burgueses enciclopedistas, como d’Alambert, Voltaire, Diderot, mas também ante um  ranço pessimista que sobrevém do século XVII, onde a nobreza descrente começava a sentir o desencanto do mundo, como o Duque de La Rochefoucauld, que na opinião quase unânime dos críticos é o que mais refletirá na obra de Matias Aires, cujas Reflexões aparecem em 1752.
     Da terra em que nasceu, o ambiente histórico é o da Colônia rica, onde o ouro existia. Sobre a escravidão distribuída entre as fazendas e as minas erguia-se uma sociedade de funcionários e de senhores de terras, pessoas ligadas à burguesia por laços de sangue, mas, dentro do padrão de vida da colônia escravocrata-latifundiária, mais privilegiadas talvez que qualquer nobreza europeia. Filho de funcionários de São Paulo, Matias Aires será – como fora La Rochefoucauld, embora nosso autor seja um burguês – uma mentalidade expressiva de um sentimento de nobreza descrente e entediado, como seriam todos os pensadores setecentistas que não viviam o sonho entusiasmado dos ideais liberais. 

Estudo Crítico

I – Sentido da obra
     No século XVIII o mundo intelectual se dividia em duas correntes: uma, esperançosa e liberal; outra pessimista, descrente, ao ver que desde o século XVI, onde a humanidade renascentista pusera toda a sua fé no futuro dos homens, nada de realmente novo se positivara. Assim, publicado em 1752, o livro de Matias Aires atendia ao interesse de muitos leitores, e por isto foi um livro de sucesso. Desde o século XVI eram comuns os livros, a maioria despretensiosos, que procuravam, sem os embaraços de obra positivamente filosófica, a utilidade e a verdade do homem sobre a terra; por exemplo, em 1654, publicava-se na França um sugestivo trabalho intitulado “Como adquirir a Paz no Matrimônio”, tipo de obra comum, e além destes livros de “experiência”, publicavam-se esmeradas lições de etiqueta e os livros tidos como práticos e conselheiros, tais como os que continham regras de medicina domiciliar. Entre estes livros de moral (em geral, a partir do século XVII, pessimistas, com ranço de profunda ironia, fazendo a ligação entre Molière e Voltaire) se enquadrará a obra de Matias Aires.
     O homem mau foi constante nos filósofos do pessimismo no século XVII. Hobbes vira no homem anterior ao “contrato social” o “homo homini lupus”, enquanto Locke admitira, para conclusões antagônicas, o mesmo egoísmo e a mesma maldade no “homem natural”. Mentalidades clássicas, eles procuravam a versão do homem natural em autores da antiguidade, e Tucídides, que Hobbes estimava e traduzira, fornecera o material fonte para tal conceito.
     No século XVII, é permanente a alusão ao homem guiado pela falta de princípios: “os vícios entram na formação das virtudes como os venenos entram na composição dos remédios”, explicaria La Rochefoucauld, e Madame Sevigné, La Bruyère, e outros, nos deixaram claro que acreditavam na maldade inata do “Homem Natural”, premissa que se tornou o lugar comum até que a pena de Jean Jacques Rousseau o viria defender, mas já na segunda metade do século XVIII.
     Do princípio do homem mau saía a vontade de desmascará-lo,  apresentando-o como ligado a um vício; Matias o tem preso à vaidade.
     É difícil examinar se Matias Aires queria realmente, por convicção da impossibilidade de se corrigir o que restava de vicioso no do “Homem Natural” antigo, apresentar-nos uma extensa filosofia da Vaidade, formando assim, como já apontou um crítico, de um aspecto parcial uma filosofia do todo. Mas há também quem tenha lembrado que a crítica social às vezes formulada usava, por ironia, a impressão da crença num aspecto parcial, aparentemente desprezível, para o ridículo do Todo. Lembramos que este processo era velho. Já Erasmo utilizara-o no seu Elogio da Loucura, no século XVI.
     Seria Matias Aires um convicto da vaidade, tal como – diz um outro crítico atual [anos 1960] – Marx crerá na Economia e Freud na libido, no século XIX? Ou Matias Aires, como humanista, que indiscutivelmente era, lançara mão da Vaidade na sua obra, como Erasmo da Loucura? Ou, podemos pensar ainda, sua Vaidade servia para uma renovação do Eclesiastes, formulando, numa apresentação ao gosto do século em que vivia, a lembrança de uma “Verdade Eterna”?
     Com qualquer intenção, surgia novamente o tema da vaidade estigmatizando o homem imperfeito; usava-se Matias Aires para apresentar sua descrença, seu ceticismo no homem, seu pessimismo enfim. Este pessimismo é que provocou lembrarem-se seus críticos de estar sua obra, do ponto de vista da temática, mais ligada ao século XVII do que ao XVIII. Estava o autor como à “cavaleiro entre os dois séculos”. Isto melhor explica de como o livro, com a temática pessimista oriunda do século anterior, era simultaneamente um livro atual, obtendo assim o êxito de várias edições. O tema, afinal, não era totalmente explorado. O livro realmente só veio a cair no esquecimento no século XIX: pois a definitiva vitória liberal e o individualismo que se seguiu, a crença absoluta na missão e na perfeição do homem que surgiria no século do romantismo, tornaram o livro repentinamente antiquado.

II – A linguagem e o estilo

     O “clássico” da língua.
     Desde o redescobrimento de Solidônio Leite, tornou-se lugar comum incluir Matias Aires entre os “clássicos” da língua.
     Cândido Jucá (filho) com a sua autoridade de filólogo, é dos raros que, apontando o exagero de tal atitude, lhe delimitam convenientemente os méritos (A Literatura no Brasil, vol 1, t. 1, págs, 520 e 521).
     Na verdade, por mais que se estenda o conceito de “clássico”, sempre seria impróprio aplicá-lo a Matias Aires: 1º - é ele antes barroco do que neoclássico; 2º - não tem a sua obra aquelas características de genialidade, ou talento ímpar, que a tornem representativa de uma época; 3º - não é modelar a sua linguagem, enfeiam-na solecismos, é um tanto arcaizante, e nem sempre se distingue pela limpidez; os períodos são por vezes excessivamente sobrecarregados, tirando-lhe ao estilo a maciez e ductilidade apregoada por alguns.
     Sirvam de amostra, quanto à correção da linguagem, estas passagens:
     “Nisto se vê dois efeitos contrários” (fragm. 11, pág. 13 da 1ª ed.);
     “Mal pode caber na lembrança dos homens todos os grandes sucessos de que se compõe a variedade do mundo” (fragm. 26, pág. 29 da 1ª ed.);
     “A falta de Religião consiste em se não temer a Deus, a falta de costumes resulta de se não temer os homens” (fragm. 75 – 17 desta edição - , pág. 98 da 1ª ed.);
     “Se os olhos e os ouvidos se distraem, e alucinam, que outros sentidos temos nós que os haja de conter, ou os faça retratar?” (fragm. 112 – 37 desta edição – págs. 205-6 da 1ª ed.);
     “Mas de quantas ações fará menção a história, que jamais se viram? / ... / E de quantos nomes, que nunca houveram?” (fragm. 144 – 46 desta edição - , pág. 363 da 1ª ed.).
     Conforme os autores desta crítica, o vocabulário das Reflexões, é bastante parco, nada justificando a sua inclusão entre as obras básicas para a elaboração do Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa – resolução que estes autores consideram como o ponto de partida para a “ressureição” da obra de Matias Aires.
     Ainda conforme os autores, não tem Matias Aires singularidade marcante de estilo: sua linguagem é comum, bastante clara, embora às vezes algo arcaizante, aproximando-se mais da prosa seiscentista, de que conserva, por vezes, certas construções barrocas.
     Emprega sempre algumas formas já caídas em desuso à sua época: fermoso, fermosura, valeroso, desemparar, ventagem, a fantasma, o hipérbole; nas orações de voz passiva pronominal antepõe, contra o uso moderno mais geral, o sujeito ao verbo: “Uma grande pena admira-se, e respeita-se” (fragm. 18); “O vício pratica-se ocultamente” (fragm. 68).
     Sua pontuação é também antiquada, e menos coerente que a de prosadores do século anterior, como Bernardes, Francisco Manuel de Melo, Frei Antônio das Chagas, Frei Luís de Sousa.
     Revelam artifício barroco certas construções como estas: “A ciência humana o mais a que se estende, é ao conhecimento, de que nada se sabe: é saber o saber ignorar, e assim vem a ciência a fazer vaidade da ignorância” (fragm. 14); “Bem se pode dizer, que o juízo é o mesmo que entendimento, porém é um entendimento sólido; por isso pode haver entendimento sem juízo, mas não juízo sem entendimento: o ter muito entendimento às vezes prejudica, o ter muito juízo sempre é útil: o entendimento é a parte que discorre, porém pode discorrer mal: o juízo é a mesma parte que discorre, quando discorre bem: o entendimento pensa, o juízo também obra; por isso nas ações de um homem conhecemos o seu juízo, e no discurso lhe vemos o entendimento: o juízo duvida antes que resolva, o entendimento resolve primeiro que duvide; por isso este se engana pela facilidade com que decide, e aquele acerta pelo vagar com que pondera (fragm. 15). Conforme M. L. Belchior Pontes, Frei Antônio das Chagas – Um Homem e um Estilo do século XVII, cap. X.
     Uma particularidade de notar é a frequência da antecipação do complemento verbal, mais comumente sem relembrá-lo pleonasticamente. Vejam-se, de amostra, estes dois exemplos (do Prólogo): “A maior parte destas Reflexões escrevi sem ter o pensamento naquela vaidade”; “E esta promessa entro a cumprir já”. – Com pleonasmo em forma de pronome átono é bem menos frequente a antecipação, ao contrário do que acontece em autores do século XIX: “A constância da virtude não a devemos à vontade, mas ao receio”. (fragm. 21); “À mulher todos a idolatram por formosa” (58); “A virtude não a queremos de graça” (119).
     Ressalvado tudo isso, não lhe podemos negar à linguagem, entretanto, uma fluência persuasiva (o leitor há de verificá-lo), originária menos do estilo do que da sua habilidade dialética, da qual nem sempre é fácil desenredar-nos.
    Se de um lado, a linguagem e o estilo de Matias Aires nada têm de excepcional, por outro lado só é de louvar a sua redescoberta, por nos ter ela trazido, com as reedições das Reflexões, o primeiro pensador brasileiro (só de nascimento, aliás, porque todo europeu na educação e sentimento), ainda hoje “extraordinariamente atual e vivo” [década de 1960] graças à saborosa perspicácia da sua análise da alma humana, em certos aspectos imutável através dos tempos.     

     Os temas

     Partindo do leit motiv “vaidade”, aborda variados temas, com os quais vem ela mesclada, uma vez que, para ele, é a vaidade, ainda que às vezes paradoxalmente, que nos leva a uma série de paixões e vícios, e instituições:
    Ao amor próprio: “Nasceu o homem para viver em uma contínua aprovação de si mesmo. A vaidade parece-se muito com o amor próprio, se é que não é o mesmo; e se são paixões diversas, sempre é certo que ou a vaidade procede do amor próprio, ou este é efeito da vaidade” (fragm. 10 da 1ª ed.).
     A glória: “Vivemos com vaidade, e com vaidade morremos; arrancando os últimos suspiros, estamos dispondo a nossa pompa fúnebre, como se em hora tão fatal o morrer não bastasse para ocupação: nessa hora, em que estamos para deixar o mundo, ou em que o mundo está para nos deixar, entramos a compor, e a ordenar o nosso acompanhamento e assistência funeral; e com vanglória antecipada nos pomos a antever aquela cerimônia, a que chamam as Nações últimas honras, devendo antes chamá-la vaidades últimas” (fragm. 2 da 1ª ed.).
     A sociedade: “Nada contribui tanto para a sociedade dos homens, como a mesma vaidade deles: os Impérios, e Repúblicas, não tiveram outro princípio em que mais seguramente se fundassem: na repartição da terra, não só fez ajuntar os homens os mesmos gêneros de interesses, mas também os mesmos gêneros de vaidades, e nisto se vê [sic] dois efeitos contrários; porque, sendo próprio na vaidade o separar os homens, também serve muitas vezes de os unir” (fragm. 11 da 1ª ed.). – “A vaidade sempre foi origem de nossos males; mas primeiro que a vaidade, foi o comércio comum das gentes; porque dele resulta a vaidade como contágio contraído no trato, e conversação dos homens” (fragm. 38 da 1ª ed.).
     E até a mesma virtude: “A vaidade, por ser causa de alguns males, não deixa de ser princípio de alguns bens: das virtudes meramente humanas, poucas se haviam de achar nos homens, se nos homens não houvesse vaidade” (frag. 8 da 1ª ed.).
     E assim à nobreza [nº 45 dentro da edição em que este texto se baseia], à justiça (nº 43), à tirania (nº 11), à inveja (nº 8)...
     Não deixa de causar certa estranheza, nas reflexões acerca do amor, sabê-las de um misantropo e pessimista crônico, em que não suspeitaríamos o lirismo que por elas perpassa.

Fonte bibliográfica: 
Matias Aires - textos escolhidos - Coleção Nossos Clássicos - Editora Agir - por Adriano da Gama Kury e Pedro Luiz Masi - Publicado sob direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Correa, Jorge de Sena, 1962. 


domingo, 14 de maio de 2017

Um texto do escritor Matias Aires


   Mas se é certo que a vaidade é vício, parece difícil o haver virtude que proceda dele; porém não é difícil quando ponderamos que há efeitos contrários às suas causas. Quantas dores há, que se formam do gosto, e quantos gostos, que resultam da dor! Essa infinita variedade dos objetos tem a mesma causa por origem: as diferentes produções que vemos, todas se compõem dos mesmos princípios, e se formam com os mesmos instrumentos. Algumas coisas degeneram, à proporção que se afastam do seu primeiro ser; outras se dignificam, e quase todas vão mudando de forma, à medida que vão ficando  distantes de si mesmas. As águas de uma fonte, a cada passo mudam; porque apenas deixam a brenha, ou rocha donde nascem, quando em uma parte ficam sendo limo, em outra flor, e em outra, diamante. Que outra coisa mais é a natureza, do que uma perpétua e singular metamorfose?

Fonte bibliográfica:
Texto da obra “Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, ou Discursos Morais sobre os efeitos da Vaidade”(1752) in “Matias Aires – Trechos Escolhidos”, por Adriano da Gama Cury e Pedro Luiz Masi. Coleção Nossos Clássicos. Direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Correa e Jorge de Sena. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1962. 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Dados biográficos do escritor Matias Aires


1705 – Nasce, em São Paulo, Matias Aires Ramos da Silva de Eça, filho de José Ramos da Silva, provedor da Casa da Moeda de Lisboa, e de Dona Catarina da Horta.

1716 – Segue para Lisboa, onde cursa o Colégio de Santo Antão.

1722 – Matricula-se no Curso de Leis da Universidade de Coimbra.

1728 – Viagem por Madri e depois para Baiona, onde estuda Hebraico, Ciências Físicas e Matemática.  Aí faz amizade com o Infante D. Manuel.

1729 (?) – Segue para Paris, onde se diplomou “em ambos os direitos”, numa permanência de mais de cinco anos.

1733 – Data provável de seu regresso a Portugal.

1742 – Nasce seu filho José, de suas relações com D. Helena Josefa da Silva.

1743 – Em 18 de dezembro morre seu pai, que deserdara a filha D. Teresa Margarida da Silva e Horta – autora do primeiro romance brasileiro, As Aventuras de Diófanes – por ter a mesma casado, contra a vontade paterna, com Pedro Jensen Moler van Praet. Matias Aires opõe-se com todo empenho a que a irmã, que se afastara da família, receba alguma coisa. Ela, por sua vez, o acusava por dilapidar os bens da família com sua viagem à França. Neste mesmo ano, Matias Aires adquire o palacete dos Condes de Alvar, conhecido como o Palácio das Janelas Verdes.

1744 – É nomeado Provedor da Casa da Moeda, cargo que era ocupado por seu pai.

1748 – Nasce seu segundo filho, Manuel Inácio, que, juntamente com o irmão mais velho, terão dedicação maternal de parte de Teresa Margarida, a qual, depois de asenviuvar (ou pouco antes), se reconciliara com o irmão.

1752 – Data da primeira edição de “Reflexões sobre a Vaidade dos Homens”. Neste ano se publica também o romance da irmã (que usa o anagrama Dorothes Engrassia Tavareda Dalmira), então com o título “Máximas de Virtude e Formosura”.

1761 – Circula a segunda edição de “Reflexões”. Matias Aires é demitido pelo Marquês de Pombal, das suas importantes funções de Provedor da Casa da Moeda.

1763 – Morre, em 10 de dezembro, de apoplexia.


Fonte bibliográfica:
Matias Aires – Reflexões sobre  vaidade dos homens” – Trechos Escolhidos. Por Adriano da Gama Kury e Pedro Luiz Masi. Coleção Nossos Clássicos . Sob direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim e Jorge de Sena. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1962.

sábado, 12 de novembro de 2016

Gonçalves de Magalhães - Contexto histórico e crítica


Contexto histórico

     Nascido no Rio de janeiro em 13 de agosto de 1811, Gonçalves de Magalhães viveu a infância e começou sua formação intelectual no período de permanência de D. João VI no Brasil, de 1808 a 1821, e dos acontecimentos posteriores, durante o primeiro império, a regência, até a maioridade. Considerando-se ainda a revolução romântica que se processava na Europa, em substituição ao estilo clássico, temos apontados dois antecedentes fundamentais que apoiam e explicam as atitudes e o significado, sobretudo reformador, da obra que, a partir de 1832-1836, ele realizaria entre nós, a ponto de ser distinguido como reformador da literatura brasileira. À sua formação neoclássica, junta-se um intenso sentimento patriótico, o desejo de reconhecer tradições e valores brasileiros, de renovar a nossa cultura, particularmente a nossa literatura, no que é inspirado, a partir de dado momento, pela reforma romântica das literaturas europeias, notadamente francesa, italiana e portuguesa, com as quais entra em contato direto a partir de 1833.
     A presença da corte portuguesa no Rio de Janeiro condicionou fatores e condições indispensáveis à reforma romântica da literatura brasileira, iniciada por atitudes críticas e objetivos, conscientemente expressos, de Gonçalves de Magalhães, quando, em 1836, fundou a Niteroi – Revista Brasiliense e publica em Paris os Suspiros Poéticos e Saudades. Limitaremos de 1808 a 1836, em correspondência com a nossa história política, econômica e social, o momento historicamente considerado mais importante da evolução literária no Brasil: a transição das condições coloniais de nossa vida literária para a sua expressão autonômica, em busca da definição de sua própria nacionalidade, e, ao mesmo tempo, a transição do neoclassicismo arcádico para o romantismo. Só a partir de 1808 é que somos favorecidos com condições indispensáveis à atividade literária que de fato pudesse exprimir o complexo da nacionalidade em formação. Destacam-se, assim, os atos econômicos, políticos e culturais do governo português no Rio de Janeiro; a abertura dos portos do Brasil ao livre intercâmbio com as nações amigas, a elevação do Brasil à categoria de Reino unido a Portugal e Algarves, incremento da agricultura, da indústria e do comércio, criação de museu, arquivo, biblioteca pública, imprensa, periódicos, publicação de livros e possibilidade do comércio do livro, reformas do ensino, com instalações de escolas de nível superior, estímulo das atividades artísticas, música, pintura, arquitetura, início de verdadeira atividade dramática. Tudo resulta na elevação da condição e da dignidade de ser brasileiro, na revelação imediata da consciência de nossas possibilidades, sobretudo num intenso ardor patriótico ou nacionalista refletido em todos os setores da vida do país, quando não expresso por um antilusitanismo que explicaria em parte o indianismo romântico e em parte a repulsa que manifestamos pela contribuição portuguesa em nossa vida literária, quando a substituímos, ostensivamente, por influência de outras literaturas, notadamente a francesa, e lutamos pela definição de um estilo literário brasileiro.
     Favorece-nos então o advento do romantismo, indo ao encontro do estilo clássico, essencialmente universalizante e sobretudo desfigurado, incaracterístico, se considerado dentre das limitações estreitas e pobres de nossa vida literária até princípios do século XIX. Essencialmente nacionalista, o romantismo, voltado para uma temática que, se por um lado exprimia o individualismo e a sentimentalidade do homem da primeira metade do século XIX, propício à confidência, aos anseios indefinidos, à exaltação da sensibilidade, por outro lado buscava inspiração menos pessoal na exaltação de tradições e valores históricos nacionais, nas sugestões da paisagem social e da natureza de cada país. Nada mais favorável, portanto, à expansão do ardor patriótico de uma jovem nação, ao entusiasmo nacionalista de seus filhos, quando intensamente eles viviam aquelas consequências das reformas políticas, econômicas, culturais e sociais de D. João VI no Brasil. Fazia-se necessário, contudo, a consciência crítica dessa reforma romântica a ser definida em nossa vida literária. Neste caso, - desde as sugestões de estrangeiros como Ferdinand Denis e Almeida Garrett, até a contribuição de brasileiros que estiveram na Europa, pré-românticos como José Bonifácio de Andrada e Silva e Domingos Borges de Barros, figuras já reconhecidamente românticas como J. M. Pereira da Silva, Adolfo Vernhagen, Justiniano José da Rocha, - se destaca a figura de Gonçalves de Magalhães, formação neoclássica logo dominada pelo nacionalismo, pela efervescência renovadora que nasce entre nós com a presença de D. João VI, e, sobretudo, pela reforma romântica europeia com a qual, como vimos, ele entra em contato direto, a partir de 1833. E de 1833/1836 até 1846, ano da publicação da primeira grande obra romântica brasileira – os Primeiros Contos de Gonçalves Dias, estendendo-se até 1856, quando José de Alencar critica seu poema épico A Confederação dos Tamoios, motivando uma polêmica célebre, é certo que o papel de Gonçalves de Magalhães é realmente o de reformador e renovador de nossa vida literária, sob a inspiração e o pensamento crítico romântico, dominado por exaltado sentimento patriótico.

Estudo Crítico

     Para uma abordagem sumária da obra de Gonçalves de Magalhães, no sentido de comprovar a interpretação e a valorização que lhe atribuímos, vejamo-la por ordem cronológica de publicação e ao mesmo tempo dentro de um critério de agrupamento genético, buscando, sobretudo, o pensamento crítico do autor, sua temática principal e preferida e a importância histórico-literária de suas realizações. Cultivou a poesia lírica, épica, dramática (teatro em verso), a ficção, o ensaio crítico e histórico, além dos estudos ou ensaios filosóficos que realizou. Como poeta lírico, deixou-nos a parte mais extensa de sua obra, compreendendo, de acordo com a edição das Obras Completas, os seguintes volumes: Poesias Avulsas, Suspiros Poéticos e Saudades, Cânticos Fúnebres e Urânia, sendo que seu livro de estreia – Poesias – datado de 1832, se acha em grande parte reproduzido nas Poesias Avulsas, uma vez que foi submetido à revisão e seleção do autor. Como épico, publicou A Confederação dos Tamoios; como teatrólogo, além de traduções, deixou duas peças originais conhecidas – Antônio José ou o Poeta e a Inquisição e Olgiato; reuniu nos Opúsculos Históricos e Literários várias páginas em prosa, entre as quais destacamos o ensaio “Discurso Sobre a História da Literatura no Brasil”; escreveu uma pequena novela – Amância - , e deixou publicados finalmente, três volumes de filosofia – Comentários e Pensamentos, Fatos do Espírito Humano e A Alma e o Cérebro (estudos de psicologia e fisiologia), aspectos de sua obra que aqui não nos interessa diretamente [conforme o texto de José Aderaldo Castello].
     Considerando, portanto, como livro de estreia de Gonçalves de Magalhães o volume Poesias, de 1832, no prefácio que o acompanha, encontramos o ponto de partida de suas ideias sobre poesia e dos objetivos de sua obra. Dando como menosprezada a atividade poética, procura enobrecê-la e reconhecer-lhe como finalidade a exaltação patriótica e a elevação das virtudes humanas, apontando-a como uma parte da filosofia moral. No momento crítico que então vivia a nacionalidade, dominada por lutas, ódios e ambições, nada mais oportuno e necessário a todo bom patriota, do que dirigir seu canto contra os vícios e o crime, reconhecer a bondade do coração humano e estimular nos seus patrícios a ambição da glória, para ilustração da “cara Pátria”. A temática que desenvolveria nas composições das Poesias, reproduzidas parcialmente ao lado de outras esparsas, escritas desde a mocidade, no volume das Obras Completas – Poesias Avulsas enquadra-se rigorosamente nestes seus propósitos. Reúnem-se aqui odes sáficas e pindáricas, cantatas, églogas, nênias, elegias, sonetos, epicédios, liras, epístolas, sátiras, epigramas, elogio dramático, apólogo, além do poemeto “As Noites Melancólicas” em que se fazem reflexões sobre o homem, seu sentimento de amizade, a miséria de sua condição e a morte. As próprias formas poéticas preferidas indicam o predomínio dos elementos de formação neoclássica do poeta, mas já de mistura com atitudes reconhecidamente românticas, sobretudo entrevistas no sentimento religioso, na preocupação moralizante, na exaltação patriótica e na exacerbação com que ele lamenta a dor, reconhece o mistério impenetrável do homem e da vida e apela para a morte.
     Sem propriamente se renovar, Magalhães amplia as suas considerações sobre a poesia e a temática que cultiva, ao publicar, em 1836, os Suspiros Poéticos e Saudades, obra que pretende sob as sugestões recebidas diretamente do romantismo europeu, inaugurar neste sentido, a reforma da literatura brasileira. Agora, já se apresenta livre da disciplina formal e de certas peculiaridades do estilo neoclássico, confessando que escreveu a sua nova obra segundo as impressões dos lugares que conheceu, cidades tradicionais, monumentos históricos, sugestões do passado, impressões da natureza associada ao sentimento de Deus, reflexões sobre o destino de sua pátria, sobre as paixões humanas e o efêmero da vida. Reafirma, dentro de um ideal religioso, a finalidade moralizante da poesia, capaz de ser instrumento de elevação e dignificação da pessoa humana, condena o estilo mitológico e proclama a liberdade formal da criação poética. O prefácio “Lede”, ao volume citado, vale assim, para nós, como uma espécie de manifesto romântico, ampliado pela introdução que escreve ao estudo da nossa literatura, no “Discurso Sobre a História da Literatura no Brasil”, que ficou apenas nos quatro primeiros capítulos publicados na Niterói – Revista Brasiliense, que ele fundou e editou em Paris, também em 1836. Motivado por vibrante propósito patriótico, procura aí realizar uma exaltação do Brasil, indicar os caminhos próprios de nossa vida literária, criticando a influência do espírito clássico em nosso passado literário, dado o seu caráter desnacionalizado e desnacionalizador, apontando a inspiração religiosa, ressaltando a necessidade de afirmar a nossa nacionalidade literária. Nos prefácios da Poesias Avulsas, e dos Cânticos Fúnebres – revivescência da “poesia dos túmulos”, de princípios do romantismo – publicados ambos em 1884, repisa nos mesmos pontos básicos acima salientados. Só Urânia, de 1862, não apresenta as preocupações indicadas, voltado que é para uma tentativa infeliz e prosaica de exaltação lírica da mulher amada, retomando, sem inspiração, sem força comunicativa, o culto da divinização da mulher da poesia camoniana e a sugestão lírica de Gonzaga.
     Nada de novo na temática desenvolvida nas últimas obras indicadas, se aproximadas das ideias já expostas, ideias que sem dúvida presidiram a elaboração delas. São temas e motivos românticos, subordinados a reflexões sugeridas pelo espiritualismo filosófico que Gonçalves de Magalhães aprendeu com Frei Francisco de Monte Alverne e nos cursos que frequentou em Paris ou no conhecimento de Jouffroy e Victor Cousin. Às reflexões sobre Deus e a natureza se ajustam as considerações sobre o poeta e a poesia, o sentido divino de sua inspiração e o objetivo moralizador de sua obra; canta a infância, a mocidade e a velhice, assim como se julga infeliz e sofredor; glorifica o passado histórico ou exprime saudade da pátria distante, exalta a amizade, a justiça, a liberdade, e decanta a Pátria. Ou então, ainda revivendo a já ultrapassada “poesia dos túmulos”, dos albores do romantismo, pondera a condição efêmera do homem, exacerba-se, numa lamentação fúnebre, e aspira a morte como uma libertação.
     A mesma preocupação renovadora ou reformadora, do ponto de vista crítico e de difusão de uma temática e de processos expressivos novos, pode ser reconhecida na poesia épica e no teatro de Gonçalves Magalhães. Entre os seus propósitos literários, Magalhães sempre manifestou, desde a mocidade, o desejo de escrever um poema épico nacional. E em pleno domínio do romantismo, quando o gênero, próprio da tradição clássica, já havia sido praticamente abandonado, ele publicou primeiro em edição imperial, em 1856, sob o patrocínio de D. Pedro II, depois em edição comum, em 1857, o poema A Confederação dos Tamoios. O desejo de glorificar o passado histórico nacional , o sentimento antilusitano que inspirou o poeta e o fundamento neoclássico de sua formação, justificam, literariamente, a elaboração um tanto extemporânea desta obra. Tanto assim que, apesar de certas afirmações críticas pressupondo atitudes renovadoras, Magalhães se apresenta diretamente filiado na tradição épica nacional esboçada na era colonial de nossa literatura, em que avultam Frei José de Santa Rita Durão e José Basílio da Gama. Do primeiro, muito preso ao modelo camoniano, além da sugestão indianista e do sentimento cristão ou religioso, retomou as intenções patrióticas de realizar uma epopeia nacional; no segundo, à parte também a sugestão indianista, observou o abandono das principais características de estilo e de estrutura externa impostas pela épica tradicional, desde a linguagem mitológica até o uso da oitava rima, substituída esta pelo verso decassílabo branco de estrofação livre.
     Contudo, nota-se no poema em apreço talvez uma maior tendência para a observância dos moldes tradicionais do que a introdução de novidades. Compõe-se A Confederação dos Tamoios de dez cantos, escritos em versos decassílabos predominantemente brancos, às vezes rimados, em estrofação livre; abandona o maravilhoso pagão, substituindo-o, porém, pelas sugestões do fetichismo indígena, o que já se nota no Uruguai de Basílio da Gama; e apresenta a divisão em partes, conforme agora o modelo quinhentista. Sua ação central gira em torno das lutas dos tamoios confederados, que em certo momento se aliam aos franceses, contra os portugueses colonizadores, em meados do século XVI, com um cenário que se estende do litoral paulista ao Rio de Janeiro. Preenchem as páginas do poema de Magalhães vários fatos, ocorrências, figuras históricas de portugueses, índios e jesuítas – Brás Cubas, João Ramalho, Tibiriçá, Caiubi, Cunhambeba, Jagoanharo, Aimbere, Iguaçu, Parabaçu, Pindobuçu, Anchieta, Nóbrega – nos limites do século XVI, além de referências a fatos e pessoas posteriores, numa antevisão panorâmica que chega até a Maioridade; de páginas descritivas da paisagem brasileira; e de outras repletas de intenso sentimento religioso entrevisto sobretudo na figura de Anchieta. Pode-se dizer que a Confederação dos Tamoios, de acordo com as impressões de Frei Francisco de Monte Alverne, é um poema intensamente patriótico, religioso e moralizante, o que está bem de acordo com o espírito e os propósitos do autor. Mas é uma obra medíocre como de resto toda a produção literária de Magalhães, consistindo seu valor no sentimento e nas intenções reformadoras e estimuladoras do escritor. Evidentemente não pode ser apreciado como um poema épico nacional. Apresenta, porém, uma grande vibração patriótica, o sentimento antilusitano que então nos dominava, na preocupação de reconhecermos as raízes autóctones de tradições e valores nacionais. Daí a defesa histórica do índio, tido como o mais legítimo elemento da nossa formação, contra as injustiças e o menosprezo do elemento colonizador adventício. Mas não chega a realizar uma valorização histórica do indígena, de maneira convincente, nem tampouco a explorar poeticamente as sugestões deixadas pelo seu antepassado remoto e pelas lutas com os portugueses nos momentos iniciais da conquista da terra. Talvez o que haja de mais notável neste poema, sem com isto pretender por em segundo plano as observações já feitas, seja o fato de ele haver motivado as famosas críticas de José de Alencar, no Diário do Rio de Janeiro, ocasionando uma polêmica da qual participaram Manuel de Araújo Porto-Alegre, D. Pedro II, Frei Francisco de Monte Alverne, além de outros, importantíssima para o estudo e a exata compreensão da tendência indianista do romantismo no Brasil.
     Mas não é tanto a poesia épica que amplia o significado da posição de Magalhães no início da reforma romântica no Brasil, conforme já ficou entrevisto através de sua produção lírica e de seu pensamento crítico. Tal relevo é dado ainda pelos seus propósitos de criar um teatro de legítima expressão nacional, contando, no caso, com a colaboração do grande ator da época, João Caetano, verdadeiramente o primeiro organizador de uma companhia de teatro que pode ser considerada como brasileira. Antes de Gonçalves de Magalhães, de João Caetano, Porto-Alegre e Martins Pena, a rigor não podemos falar em teatro nacional, compreendendo-se nesta expressão, o autor, a obra, o ator ou companhia, o edifício adequado à representação e o público realmente interessado. E dentro do setor exclusivo da história, não se poderia falar, até à altura da reforma de Magalhães e João Caetano, o que interessava ao nosso público eram o dramas febricitantes, o que viciava a imaginação e a sensibilidade.  Escritores como Souza e Silva, Lemos Magalhães, Antonio José de Araujo, Pinheiro Guimarães Junior, Odorico Mendes e mesmo Gonçalves de Magalhães limitavam-se a traduzir Byron, Arnaud, Delavigne, Ducis; são adaptações de peças de Shakespeare, por exemplo Otelo ou o Mouro de Veneza. Sentiu desde cedo, nos seus propósitos de reformador da literatura Brasileira, a necessidade de estimular a criação de peças nacionais; de assunto e de interesse nacionais, para de fato conseguirmos a organização de um teatro que correspondesse à nossa realidade. Mais uma vez, como logo mais os veremos, vale aqui a sua intenção, o seu esforço pioneiro, o caminho que abre, com Manuel de Araujo Porto-Alegre, e João Caetano para a verdadeira cena nacional, com Martins Pena e outros românticos como José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo.
     A primeira peça de Gonçalves de Magalhães é a tragédia Antonio José ou o Poeta e a Inquisição, datada de 1838, quando, em 13 de março foi pela primeira vez representada no Teatro da Praça da Constituição pela Companhia de João Caetano, que acabava de ser organizada. Nos moldes do teatro clássico, compõe-se a peça de Gonçalves de Magalhães, por ele considerada uma tragédia de assunto nacional, de cinco atos escritos em verso, metro decassílabo, com assunto tomado à história, isto é, aos últimos momentos da vida do teatrólogo Antônio José da Silva, o Judeu, quando, em 1739, submetido a segundo processo, foi queimado vivo em Lisboa, por ordem da Inquisição. Naturalmente – e esta é a única explicação realizável – a peça é pelo autor considerada de assunto nacional pelo fato daquele malgrado comediógrafo, hoje considerado um autêntico escritor português, haver nascido no Brasil. Mas, na época romântica, sobretudo nesses momentos iniciais em que se situa a ação renovadora de Magalhães, não se levava ainda em consideração um rígido critério de nacionalidade literária e o que prevalecia era o propósito patriótico de ressaltar valores e tradições, descobrir uma passado literário eu possibilitasse historicamente a valorização de nossa
 vida intelectual e artística.  
     É preciso salientar o fato de Magalhães, que se propôs a realização da reforma romântica de nossa literatura, escrever uma tragédia em que prevalecem os princípios da poética clássica. Contudo, de acordo com o que já ficou dito a propósito de sua obra poética, tal atitude se justifica em virtude do fundamento neoclássico e do espírito religioso da formação do escritor. Ao prefaciar a tragédia citada, ele declararia não seguir nem o “rigor” dos clássicos nem o “desalinho” dos românticos, reconhecendo o direito de fazer o que entendia e o que podia. Na verdade, manteve-se predominantemente clássico, ao mesmo tempo dominado por ideias de Victor Cousin, a quem cita, ao prefaciar agora a sua segunda tragédia – Olgiato – representada em 1839 e escrita nos mesmos moldes clássicos da anterior. Apresentando como ação um episódio da história italiana, propícia, como na tragédia Antônio José ou o Poeta e a Inquisição, à crítica dos abusos da tirania e às reflexões moralistas, nela Magalhães endossa a opinião do pensador francês, reafirmando que o fim da arte é o belo moral e a sua liberdade reside apenas nos meios de exprimi-lo. Daí porque renega o que considera verdadeiros “horrores” do estilo romântico, caracteres monstruosos, paixões desenfreadas, amores licenciosos. E ainda que faça concessões ao teatro do romantismo, que diz conhecer suficientemente, confessa preferir Alfieri e Corneille. Em todo caso, com ambas as tragédias que hoje nos parecem desfiguradas, aqui reconhecidas apenas pelo seu valor histórico-literário, iniciou e agitou um dos aspectos  mais importantes de nossa vida literária a partir da renovação romântica.
     À parte a obra em prosa de Gonçalves de Magalhães, cujo maior interesse, no nosso caso, reside no já ressaltado “Discurso Sobre a História da Literatura do Brasil” e na novela Amância, fraca, inconsistente, merecedora de referência apenas por ser uma das primeiras tentativas de autores nacionais no gênero ficção, somos levados, finalmente, considerada a extensão e variedade do que ele escreveu, a reafirmar os seus propósitos de definições críticas em prefácios e ensaios, além da obra de criação propriamente dita e de sua ação pessoal junto a escritores e artistas da época, entre 1833 e 1856, com o intuito declarado de promover a reforma romântica e nacionalista da literatura brasileira. É nestes termos que a sua obra, hoje quase inteiramente indiferente à nossa sensibilidade e até mesmo à nossa curiosidade humana, deve ser estudada e valorizada, porque sem dúvida é inegável a sua importância, o seu significado histórico, e sua função realmente renovadora  ou reformadora da literatura brasileira. Desde que se decidiu pela carreira literária, ainda estudante do Colégio Médico-Cirúrgico do Rio de Janeiro, que Gonçalves de Magalhães, antes de se dar à exigência de uma legítima vocação literária e à preferência por determinada forma de expressão, sentiu um impulso patriótico de contribuir para o engrandecimento geral de seu país. A sua formação mais literária, neoclássica, do que científica, enriquecida e também atenuada nas suas preocupações formalistas pelos estudos de filosofia e pelo conhecimento do romantismo europeu, além de estimulada pelo ardor patriótico, levou-o à realização de uma obra variada, na poesia lírica, épica e dramática, na ficção, no ensaio críticom nos estudos históricos e filosóficos, denotando em tudo a preocupação da reforma ou da renovação. Literariamente considerada, é preciso repisar no fato de que a sua obra nunca se desprendeu totalmente das influências neoclássicas de formação básica que o escritor recebeu, mas chegou a ser inteiramente romântica. Se apreciado principalmente como escritor romântico, a partir da publicação dos Suspiros Poéticos e Saudades (1836), logo verificamos que toda a indisciplina e o sentido de aventura criadora tão peculiares desse estilo, são controlados, por um lado pela formação religiosa de Gonçalves de Magalhães e por outra pelas reminiscências arcádicas que nunca o abandonaram, o que nos faz lembrar, salvo o aspecto religioso, a posição e o papel de Almeida Garrett na literatura portuguesa, escritor de quem ele recebeu acentuadas influências. Mas vale ser romântico por uma intenção criticamente definida, notadamente com propósitos reformadores. E é este o caso do autor aqui apresentado.  

Fonte bibliográfica: 
Gonçalves de Magalhães - trechos escolhidos. Por José Aderaldo Castello. Coleção Nossos Clássicos. Direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1961. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Escritor Silva Alvarenga - contexto histórico e estudo crítico


Baseado em texto de Antônio Houaiss

Contexto histórico

     A partir da segunda metade do século XVII, quando terminam as lutas contra os holandeses, as condições sociais e políticas do Brasil colonial principiavam a alterar-se, pois os interesses locais ou regionais começavam a colidir com os interesses metropolitanos (ou seja, de Portugal). A exportação do açúcar aumentava, o fisco passou a receber grandes somas, o que se avolumou com a exploração do ouro. Houve então uma fiscalização redobrada e opressiva da Metrópole sobre a colônia.
     Aumentam as restrições ao comércio com navios estrangeiros e criam-se companhias lusitanas de comércio inspiradas nas congêneres holandesas.
     No século XVIII, esse estado de coisas piora. Suspende-se o direito de ir e vir em áreas de minas; investigações de domicílios; fechamento de estradas; vedam-se plantios, artesanato, indústrias de consumo local, aumentando a dependência da colônia em relação ao comércio das companhias. Ao lado dos senhores fundiários, surge uma rica burguesia comerciante, burguesia essa que era predominantemente portuguesa. Com a queda do valor das mercadorias agrícolas, surge hostilidade entre os senhores de terras e os comerciantes. Com isso, surgem lutas locais, como a Guerra dos Mascates, no início do século XVIII, depois culminando na Inconfidência Mineira.
     A “inteligência” do Brasil colonial foi representada por ínfima minoria da população, que era dependente de formação cultural portuguesa, quando superior, feita em Coimbra. Na segunda metade do século XVIII passam a ter contato com iluministas. Assim, a filosofia francesa chega a essas pessoas. Bibliotecas particulares da colônia devassadas pela justiça de então evidenciaram tal influência. Esse movimento ocorreu em Minas Gerais, para onde afluiu mão de obra, administração, burocracia, governança e letras, a partir da mineração de ouro e diamantes. Surge daí a chamada “escola mineira”. Por sua conjuntura histórica ela é, do ponto de vista literário, contraditória.
     De um lado herda a ideologia absolutista, supranacional, cosmopolita, da consolidação das nacionalidades europeias a partir do Renascimento, em torno de dinastias reais interpenetradas, que se mantinha a partir de classes aristocratas. Essa ideologia supera o pensamento medieval, com noções da Antiguidade Clássica; daí o Classicismo. Na periodização desse Classicismo, alguns estudiosos vêm três fases: o Renascimento, nos séculos XV e XVI; o Barroco, nos séculos XVI e XVII; o Neoclassicismo, nos séculos XVII e XVIII.
     A outra linha vem dos primeiros impactos de uma nova ideologia, liberalista, nacionalista, advinda da ascensão de novas forças sociais do cenário europeu, com tendências a se irradiarem pelo mundo.
     A literatura da “escola mineira” tem as duas tendências, de forma um tanto retardatária. Nas academias e sociedades da literatura brasileira, ou da “escola mineira” se refletem as duas linhas.
     A escola mineira é representada pelos poetas Frei José de Santa Rita Durão, Claudio Manuel da Costa, Basílio da Gama, Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga e Silva Alvarenga.

Estudo Crítico

     Pelos dados biográficos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, depreende-se que sua vida fluiu das duas tendências ideológicas. Como poeta, entretanto, ele foi seguidor da tradição, inclusive quando faz uso de sátiras, que refletiam pessoas e o momento presente, bem como revelavam um homem voltado para o futuro, preocupado com as inovações do liberalismo em suas diversas manifestações, interessado em questões de renovação da mentalidade intelectual e aos problemas de seu meio. No entanto, sua poesia lírica, consubstanciada em Glaura, é um esforço de subordinação a formas consagradas, num preciosismo de quem procura obter alguma coisa de algo já esgotado e decadente.
     Por outro lado, certa espontaneidade em suas poesias surpreende. Para isso, pode ter contribuído o fato de Glaura não ser personagem imaginária, mas alguém que mereceu o amor de Silva Alvarenga.
     Além disso, encantado pela natureza de seu Brasil, tendeu a reduzir tendências helenizantes aos nomes de algumas entidades míticas gregas, em contrapartida a nomes de frutos e árvores dos trópicos, fundindo suas descrições a seus estados íntimos, no que alguns viram um precursor do Romantismo.
     Seu contemporâneo Tomás Antônio Gonzaga teve lirismo mais atuante por múltiplas razões, de modo que se tornou um dos poetas mais lidos do Brasil. Já Silva Alvarenga teve que se conter diante da possibilidade de censura, já que a literatura de então não comportava um mulato a cantar seus amores.
     Todas as peças líricas de sua Glaura são em número de cinquenta e nove rondós e cinquenta e sete madrigais.
     O rondó, forma poética medieval francesa, tem sua notabilidade com Guillaume de Machaut, Eustache Deschamps, Charles d’Orléans, devendo, originalmente, ser destinado ao canto e consistindo de três estrofes, com um total de doze e quatorze versos, com duas rimas recorrentes. Variando o número de versos e o esquema das rimas, o verdadeiro apoio fonético que em breve o caracterizaria, passou a ser a repetição do primeiro verso ao fim da segunda estrofe e ao fim da terceira estrofe, isto é, do rondó. Variação subsequente, que se pode chamar rondel, consistiu em repetir, em número maior de versos, o primeiro verso pela altura do oitavo ou de um dos seguintes versos e no fim do poema.
     Os rondós de Silva Alvarenga representam um fim de evolução da forma, com estrutura sensivelmente diferente. Consistem, quase todos, em quatro grupos de três quadras, sendo repetida a primeira quadra, em forma de estribilho, no início de cada grupo, assim como no fim do poema – o que totaliza, por conseguinte, treze quadras ou cinquenta e dois versos. Discrepam dessa estrutura estrófica o rondó XLIII, que consiste de sete grupos de três quadras, terminando cada grupo pela mesma quadra, em forma de estribilho; o rondó XLIV, com uma quadra inicial, seguida de um estribilho em forma de dístico, mais duas quadras, mais o dístico, alternativamente, até uma só quadra antefinal, seguida do dístico ao fim, num total de doze quadras, com o dístico repetido sete vezes; e os rondós XLV, XLVI e XLVII, que consistem de duas quadras, seguidas de dístico, mais duas quadras, seguidas de dístico.
     O verso, na maioria dos rondós, é heptassílabo, redondilho maior, salvo os do rondó XLIII, que são pentassílabos, redondilhos menores, e os do rondó XLIV, hexassílabos. Os heptassílabos são, quase sem discrepância, acentuados na terceira e sétima sílabas; os pentassílabos, na segunda e quinta; os hexassílabos, na segunda e sexta.
     Os esquema de sílabas mais frequente de rondó é didaticamente figurado num grupo de três estrofes a seguir (do rondó XXIV):

Sobre o feno recostado (a)
Descansando (a’) afino a lira (b)
Que respira (b’) com ternura (c)
Na doçura (c’) do prazer (d).

Amo a simples Natureza: (e)
Busquem outros a vaidade (f)
Nos tumultos da cidade (f)
Na riqueza (e’) e no poder (d).

Desse pélago furioso (g)
Não me assustam os perigos, (h)
Nem dos ventos inimigos (h)
O raivoso (g’) combater (d).

     O madrigal, originalmente italiano, confunde-se com a silva espanhola, praticada em língua portuguesa, consistindo de uma pequena série de versos decassílabos e hexassílabos, em sequência qualquer, rimando entre si sem esquema prévio de rimas.


Fonte bibliográfica:
Silva Alvarenga – Poesia. Por Antônio Houaiss. Coleção Nossos Clássicos. Direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa. 2ª edição. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1968. 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Poesia de Silva Alvarenga


A Luz do Sol

Rondó II

Luz do Sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Quando puro se derrama
Vivo ardor no ameno prado,
Pelas brenhas foge o gado
Verde rama a procurar.

E se o Astro luminoso
Deixa tudo em sombra fusca,
Triste então o abrigo busca
Vagaroso a ruminar.

Luz do Sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Lavrador , que aflito, e[1] velho
Sobre o campo endurecido,
Ver deseja submergido
O vermelho Sol no mar.

E se o úmido negrume
Tolda os Céus, e os vales banha,
Fita os olhos na montanha,
Onde o lume vê raiar.

Luz do Sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Pela tarde mais ardente
O Pastor estima as grutas,
Onde penhas nunca enxutas
Vê contente a gotejar.

E se as trevas no horizonte
Desenrolam negro manto,
Com saudoso, e flébil canto
Faz o monte ressonar.

Luz do Sol, quanto és formosa,
Quem te goza não conhece;
Mas se desce a noite fria,
Principia a suspirar.

Assim Glaura[2], que inflamada
Perseguiu Aves ligeiras,
Quer à sombra das Mangueiras
Descansada respirar.


[1] Na pontuação do tempo, que Silva Alvarenga observa fielmente, o e como conectivo vocabular ou oracional sempre é antecedido de vírgula.
[2] Informa Antenor Nascentes, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, tomo II (nomes próprios), Rio de Janeiro, 1952, s. v. Glaura: “Originariamente, nome forjado pelo poeta Manuel Inácio da Silva Alvarenga, para encobrir o da sua amada, que talvez se chamasse Laura, Laureana ou Clara...” Acrescentemos que é traço característico da poesia de todos os tempos, mas, sobretudo no Classicismo em geral, encobrir, nos poemas eróticos principalmente, o nome da mulher amada por meio de formas cognatas, derivadas, paronímicas, ou anagramas, exatos ou livres.

Fonte bibliográfica:
Silva Alvarenga - Poesia. Por Antônio Houaiss. 2ª Edição. Coleção Nossos Clássicos. Direção de Alceu de Amoroso Lima e Roberto Alvim Correa. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1968.